Violência na Escola: a liberdade praticada

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 Luciano Alvarenga.

A temporada de violência nas escolas recomeçou, pelo menos na grade de programação do jornalismo da grande imprensa. De tempos em tempos os grandes veículos de informação recolocam o tema, sempre da mesma maneira, o professor ou diretor agredido, o aluno sem controle, a escola abandonada literalmente e figuradamente, enfim, o mesmo.

Pouco se discute as causas fundantes do fenômeno. Não se discute a cultura de profunda ociosidade que a escola promove entre os adolescentes. Uma cultura escolar de formação exclusivamente teórica sem nenhuma ligação com a vida dos alunos e da comunidade onde estão inseridos. Não se discute o fato de que nos últimos 20 anos foi montado um imenso compêndio de direitos aos jovens, direitos estes desacompanhados de qualquer dever e ação prática, e que representou nestas duas décadas uma escalada sem precedentes de desautorização de professores e diretores e a corrosão acelerada da autoridade da Escola junto à sociedade.

Pouco se fala do fato de que a cultura secular do conhecimento – vendida como o bálsamo a nos libertar de nossas dores civilizacionais – sem o acento da cultura moral emprestada pela religião, redundou no esvaziamento da autoridade do Saber o tornando apenas um conhecimento técnico inútil. O conhecimento, nos momentos iniciais da modernidade, acrescia a Religião de significado e saber uma vez que lhe dava o quantum humano às verdades transcendentes. Agora, sem as verdades que transcendem o humano, o saber transformou-se numa cultura de conhecimento sem significado e, portanto, enciclopedismo sem aplicação prática.

O conhecimento racional imaginou poder fundar uma ética secular baseada na verdade humana construída em laboratórios de ciência. Mas o que vimos na verdade é a ética secular degringolando num fundamentalismo de mercado legitimado pela democracia como religião das massas. Não fosse pouco o estrago a própria religião civil, a democracia, adoeceu do mal que ela promovia. Como a democracia moderna não é fruto do desenvolvimento da cidadania, mas do mercado de consumo que ela promove e se retroalimenta, o que temos hoje não são mais cidadãos, mas consumidores adoecidos pelo cancro da absurdidade de apenas consumir.

A violência dos adolescentes na escola, e como sabemos das crianças nas creches, vide o quanto de ritalina e inibidores de comportamento são dados a elas, é o ponto último, mas não o mais alto ainda, de um processo em que liberdade foi confundida com um baú de direitos que deve ser constantemente enchido independente do que isso signifique. As liberdades individuais que só fizeram aumentar desde os meados do século XX, inspiraram e fizeram os indivíduos acreditarem que tanto quanto aumentam os direitos, tanto quanto inflacionam sua felicidade e incham suas possibilidades. Eis que a liberdade sem fim dos indivíduos e o campo aberto de escolhas possíveis, voltou-se contra a comunidade da qual o individuo faz parte. Quanto mais liberdade tem os indivíduos em sua particularidade menos ela é praticável no todo onde ele está inserido.

A violência que lançam os adolescentes contra a escola e seus professores é apenas uma, entre muitos fenômenos sociais, de uma geração exilada daquilo tudo que um dia possa ter significado liberdade. Sem liberdade, posto que nada podem – e mesmo que pudessem nada fariam – e, sem norte, mas com o baú cheios de direitos resta a violência como métrica de afirmação identitária. Mas como é difícil aos doutores da lei reconhecer que o caminho tomado não conduziu ao paraíso societário prometido nem pelo capital nem pelo socialismo, a única coisa que resta é continuar afirmando que os problemas que vivemos continuam sendo produzidos pela ausência de direitos e liberdade. Como se escolher entre morrer agora ou daqui pouco fosse de fato uma escolha.

Liberdade, esta palavra doente e que nada mais significa, enfraqueceu a sociedade em todos os seus poros. Destituídos de um norte onde mirar suas escolhas, a liberdade tornou-se, para os indivíduos, uma chave que apenas e exclusivamente o esvazia, murcha, enfraquece, fragmenta e o distancia. Como liberdade só pode ser plenamente vivida ao lado de seu contrário, a segurança, e o equilíbrio das duas é que as tornam charmosas em suas promessas, eis que agora mergulhamos no horror da liberdade sem segurança nenhuma, isto é, a violência. E num mundo onde se instaura a violência como fundamento da ação, não há mais liberdade. Luciano Alvarenga

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