Cânone literário salvou Machado de Assis de si mesmo

Sábado, 3 de Fevereiro de 2001, 

Crítico questiona literatura brasileira

Flávio René Kothe, professor de literatura da Universidade de Brasília, lançou recentemente O Cânone Imperial, em que analisa a tradição de nossa literatura
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A pretexto de ensinar literatura, as escolas brasileiras martelam ideologia. A opinião é do professor de Teoria Literária Flávio René Kothe, da Universidade de Brasília (UnB), que lançou recentemente O Cânone Imperial (UnB, 608 páginas, 48 reais). O trabalho pode ser encarado como um segundo volume de uma obra que procura analisar tudo o que os estudantes têm de aprender no segundo grau. O primeiro volume seria, assim, O Cânone Colonial (UnB, 416 páginas, 39 reais). Ainda em 2001, deve ser publicado O Cânone Republicano, em dois tomos, completando a análise da tradição literária brasileira. 

Kothe é implacável com os autores brasileiros e, especialmente, com o modo que eles são ensinados nas escolas. A leitura dele não perdoa nem Machado de Assis, considerado o ponto mais elevado da produção literária nacional. Embora ache que Assis é um escritor talentoso, recusa-se a incluí-lo no mesmo patamar de Dostoievski, Flaubert, Tolstoi e Goethe. No máximo, o põe no degrau de um Eça de Queirós. 

O mais grave, no entanto, para Kothe, é a completa ausência de autores “do primeiro time” no segundo grau, o que deixaria os estudantes brasileiros sem parâmetros para ler, avaliar e produzir textos literários de qualidade. “É como se um professor de piano ensinasse somente a produção brasileira, deixando Chopin de lado”, exemplifica, por telefone, de Brasília. A retirada dos escritores estrangeiros do ensino é uma herança dos militares, uma decisão que não foi revista com o fim do regime. “É inclusive um tiro no pé, um fechamento inadequado a um período de globalização, em que o mercado pede mão-de-obra criativa.” 

Como alternativa, ele afirma que a saída não é, simplesmente, substituir um cânone nacional por outro mundial: o ideal, diz, é combinar leituras universais com leituras locais, evitando uma sobrevalorização dos escritores nacionais. Além disso, ele propõe: que o curso secundário introduza a questão da qualidade, deixando de tratar todos os que figuram no cânone como grandes autores; uma revisão geral dos livros didáticos e o fim do “livro do professor”, que traz todas as respostas prontas; e, o que parece óbvio, mas talvez não seja, estimular o espírito crítico do aluno, atualmente, visto como um depósito de informações no mínimo discutíveis. “A história da literatura brasileira é escrita como se o cânone fosse puro abrigo do talento, e como se todo talento fizesse parte desse panteão acadêmico”, escreve no primeiro capítulo. 

“Eu parti da concepção de que havia uma diferença básica entre o que é o todo da produção e circulação literária do Brasil e o que é ensinado nas escolas”, afirma Kothe. Ele lembra que toda a literatura dos imigrantes – alemães, especialmente – produzida no Brasil está fora do universo literário das escolas, bem como uma série de autores que fica de fora por não reforçar a ideologia dominante. Contrariando Antonio Candido, acredita que não temos de amar, necessariamente a literatura brasileira porque ela “não é de primeira água” e também porque ela “não é uma expressão de todos os brasileiros”, ao contrário do que o discurso teórico defende. 

A definição do cânone literário brasileiro – aqueles autores que “representam” a história da poesia e da prosa do País – começa com o romantismo. Essa lista, emendada a partir de então, de José Veríssimo e Sílvio Romero a Candido e Roberto Schwarz, priorizaria, para Kothe, obras que reforçam a ideologia do Estado brasileiro, invertendo a lógica dos movimentos literários que os escritores importaram da Europa. No romantismo alemão, há um fosso entre o ideal e o real; o romantismo brasileiro, por sua vez, faz de conta que o ideal é a própria terra, o País e a Nação que está inventando. Kothe conclui, então, a equação: “Se o real é o ideal, nada deve ser modificado.” 

A literatura brasileira ensinada na escola, portanto, nascida da história da literatura que o romantismo cria, legitima a colonização portuguesa e o Estado brasileiro nascido em 1822. A escolha do homem ideal como sendo o índio nasce discriminando negros e mulatos: “A literatura nas escolas serve para ensinar racismo”, diz ele. O mesmo se verificaria em Canaã, de Graça Aranha, mas, nesse caso, é o mulato o valorizado contra os imigrantes alemães (modelo que Mário de Andrade repetiria em Amar, Verbo Intransitivo e Macunaíma, no último caso, substituindo o preconceito contra o alemão pelo contra o italiano). 

Uma das questões abordadas por Kothe é essa escolha do índio como “fundador” da nacionalidade brasileira, mito que encontra em José de Alencar (O Guarani e Iracema) e Gonçalves Dias (com o poema I-Juca Pirama), seus principais representantes. Para Kothe, além do problema da questão racial, as escolhas românticas mostram o mecanismo de inclusão e de exclusão do cânone. 

Na Europa, havia três modos de pensar os índios: como a encarnação do bem (o bom selvagem), como encarnação do mal e como instrumento da sátira. 

“O cânone brasileiro, sistematicamente, exclui o índio satírico, representado pelo poema O Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães”, afirma. A obra, que usa a mesma estrutura poética de I-Juca Pirama, tem conotação sexual explícita: o pajé em questão vê-se impotente e pede uma ajuda a Tupã, mas exagera na dose do remédio. 

A inversão do modelo europeu como meio de sustentar a colonização portuguesa e o Estado criado com o Império, fundado no escravismo, não seria uma característica exclusiva dos românticos. “Não à toa, o marxismo proletário de Émile Zola está ausente da obra de Aluísio Azevedo, o satanismo de Charles Baudelaire desaparece na poesia de Olavo Bilac e o espírito crítico de Flaubert desaparece nos textos de Machado.” 

Nos capítulos dedicados a Machado de Assis, Kothe defende que suas posições reacionárias determinaram a configuração de sua obra e ajudam a canonizar seus últimos romances. “É tal o temor reverencial que a penúltima tentativa de redimir Machado é dizer que ele não adota posição nenhuma, mas apenas desmonta, com a sua ironia, toda e qualquer posição política ou filosófica. Ora, ele apenas disfarça melhor que outros”, escreve Kothe. 

Nesse disfarçar, Assis teria mantido a figura da mulher sem voz em Dom Casmurro. Bentinho, o narrador, jamais lhe dá voz, ao contrário do que ocorre em Madame Bovary, de Flaubert. Se Dostoievski e Alencar usam a figura da prostituta que se redime por amor, Assis constrói personagens femininas a partir de senhoras respeitáveis que se revelam oportunistas, desleais e não-confiáveis. Capitu, bem como Escobar, representariam o perigo das classes ascendentes contra a oligarquia (Bentinho). A crítica, contudo, não estaria direcionada à elite escravista, mas justamente a esses novos atores sociais. 

Mas não são inúmeras as leituras que apontam Capitu como a real protagonista de Dom Casmurro e que ensinam a desconfiar, sobretudo, do narrador? Para Kothe, essa é uma leitura enviesada, que procura salvar Machado de Assis da própria obra. Algo semelhante ocorreria com a figura do negro. Para Kothe, é uma voz que Machado de Assis sempre busca calar. Um dos exemplos que usa é o de um diálogo entre Bentinho e um negro, chamado Tomás. O narrador chama-o, faz duas perguntas, servilmente respondidas pelo escravo, logo dispensado com um “Vá-se embora”. “Se ele fosse alemão, seria considerado racista; por ser mulato, fisicamente, é considerado realista. Ele procurou negar e renegar a sua origem, identificando-se com a elite branca. Nesse sentido, o ´realista´ é um ´racista´, ainda que não por ideologemas diretos e claros; por isso – e não apesar disso – entra no cânone”, escreve Kothe. 

A premissa de Kothe é verdadeira: há um temor reverencial diante das obras clássicas, o que vai contra a liberdade que a leitura exige para que permita uma compreensão melhor do mundo. Concordar com todas as conclusões dele é menos importante do que perceber que o livro cumpre o que promete – expõe as contradições e fraquezas dos autores tidos como grandes e da recepção com que foram agraciados. Obriga a quem quiser defender os clássicos brasileiros a responder aos argumentos dele. 

Se Kothe não é tão rigoroso com os autores do grande cânone mundial como é com os brasileiros – ele defende-se, dizendo que a obra de Shakespeare supera suas fraquezas ideológicas e afirmando que orienta alunos de pós-graduação que estudam os clássicos a lê-los também de um modo implacável -, essa limitação não precisa ser aceita pelo leitor. O caminho de uma leitura crítica permanente está aberto. 
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