A renúncia do Papa nos caminhos que a Igreja escolheu

Luciano Alvarenga


Bento XVI se despede do Papado e uma luta desbragada pelo poder e pelos destinos da Igreja se desenrola nos bastidores do Vaticano. Enquanto isso o “povo de Deus” decide a vida a partir da realidade que lhe é possível viver. Entre uma modernidade fracassada, um iluminismo falido e guiados pela razão técnica que nos leva sabe Deus e o Diabo para onde, a Igreja romana vem nas últimas décadas empreendendo uma meia volta até o passado remoto.
Afastados da América Latina, o maior contingente católico do mundo, e da África, os dois últimos Papas se voltaram para as questões relativas ao ateísmo europeu. Entre um mundo latino espiritualizado e pobre e um continente rico e sem religião, a Igreja tem preferido falar com segundo. E falando com os ricos deixa de pensar e se preocupar com o que realmente importa; o que fazer, como atuar e de que forma dar sentido a uma religiosidade latino americana sedenta de justiça social e econômica e onde religião ainda faz sentido.
Paralisada pela grandeza da estrutura burocrática, pela distância que mantém dos leigos e clérigos da periferia do mundo, a Igreja que vemos tem uma grande dificuldade de debater os temas da atualidade e que conformam a vida diária dos católicos e, com isso, se reformar. Entre a modernidade falida e as perspectivas de uma reforma que aponte caminhos aos leigos, a Igreja romana está andando para trás e na melhor das hipóteses, inerte.
Casais gays, contraceptivos, fecundação in vitro, biotecnologia, falência da família tradicional são realidades do mundo moderno que não podem ser revertidas ou transformadas a golpe de cartas papais. Lembremos que outras possibilidades existiram antes e não contaram com o apoio amoroso da Igreja. A destruição da Teologia da Libertação, um dos mais importantes movimentos religiosos surgidos no mundo e que se desenvolveu na América Latina desde os anos 1960, era uma perspectiva real de uma sociedade melhor, mais justa e certamente muito próxima daquilo que são os evangelhos e a mensagem de Cristo. A perseguição implacável dos teólogos e bispos que davam vida a essa perspectiva teológica na América Latina acelerou, ou pelo menos abriu caminho, para o estado de desagregação familiar, de secularização social, pandemia de drogas e de individualismo consumista que agora se consolidam como forma de vida societária.
Devemos nos lembrar de que João Paulo II foi um dos grandes articuladores políticos do desmanche do mundo socialista, mundo esse muito distante de uma realidade minimamente decente para a vida em sociedade. O que se quer dizer é que a Igreja não ponderou, com a qualidade que deveria tê-lo feito, os caminhos que se aprofundavam com a vitória do capitalismo neoliberal que passou a tomar conta do mundo a partir de então. O mundo ateu e hiperindividualista que a Igreja agora aponta corretamente como uma doença civilizacional é um mundo que a própria Igreja Católica ajudou a disseminar ou, pelo menos, não tentou impedir que se disseminasse. O Concílio Vaticano II, de 1961, foi uma resposta certa, madura e à altura daquilo que a sociedade e os católicos esperavam de sua Igreja, mas não foi o caminho que essa mesma Igreja trilhou depois. O abandono do Concílio Vaticano II e a perseguição até o aniquilamento total da Teologia da Libertação foram duas das mais importantes contribuições da Igreja em favor daquilo que hoje ela condena como uma crise civilizacional.
Ao impedir violentamente uma perspectiva teológica e social alternativa, a Igreja ao mesmo tempo empurrou os católicos do mundo ou, para uma cultura religiosa espiritualista desvinculada da vida social e concreta e baseada apenas na adoração sem obras, um tipo de religiosidade esvaziada, pobre, sem sentido nem ritualístico nem de missão, ou para um tipo de religiosidade self service em que Deus é um banco que patrocina desejos mundanos.  O resultado disso é que a Religião Católica deixou de ser uma dimensão profunda do Ser, ao mesmo tempo em que a vida se tornava empobrecida pelo consumismo hedonista, narcísico e hiperindividualista que se tornou a única forma de vida possível às pessoas neste século.  
Interessante observar que o cardeal Joseph Ratzinger, o Papa que agora renuncia, foi o grande arquiteto do fechamento da Igreja ao diálogo com a Teologia da libertação, e foi ele também quem fechou as janelas que arejavam a Igreja depois do Concilio Vaticano II. Ironicamente, toda a força retrógrada por ele posta em movimento e que triturou qualquer manifestação de transformação, insurge agora, escondida por trás do trono de Pedro e que, certamente, explica as razões da renúncia do Papa.
À Igreja não resta alternativa senão a retomada de um diálogo franco e aberto com o mundo católico levando em consideração suas necessidades e demandas. Diálogo este que poderá ai sim, possibilitar que a Igreja volte a se colocar como um norte real onde as pessoas possam viver outra vida diferente dessa que vivem e se entristecem.
A Igreja precisa ser mais que um espaço religioso, precisa a partir de agora ser uma possibilidade de vida abundante.
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