A inação política e a feiura de Paraibuna

Luciano Alvarenga
Acabei de ver algumas fotos de Paraibuna, lindas (aqui). Mas não são reais nem descrevem a verdade sobre a cidade.
Desde minha adolescência, quando ainda morava em Paraibuna, me chamava à atenção a pouca preocupação do poder público e da população em geral com a beleza da cidade e a necessidade de ela ser preservada. O caso mais emblemático de todos que pude acompanhar in loco, foi a destruição do casarão no centro da cidade para a construção da Galeria Santo Antônio. Um dos prédios mais feios que eu já vi na minha vida, uma aberração.
O casarão, um símbolo da história arquitetônica de Paraibuna e do Brasil Imperial, foi primeiro abandonado para que o tempo e a chuva o estragassem e, em seguida, foi demolido sem o menor constrangimento. Um gesto autoritário e de imenso desrespeito por parte do proprietário com relação à cidade e sua gente. Esse foi apenas um caso, houve muitos e desde muito tempo atrás.
Tenho afirmado, e cada vez com menos receio, que Paraibuna se transformou numa cidade feia. Está completamente desfigurada, sem nenhuma harmonia arquitetônica, paisagística, nada. É muito difícil para quem mora no perímetro urbano da cidade, e ali sempre morou, perceber a feiura dominante uma vez que tudo é muito familiar. Um bom exercício para entender o que estou tentando mostrar é olhar para as fotos antigas da cidade. Alguns anos atrás o Célio Freire organizou uma exposição na Fundação Cultural com estas fotos; elas são lapidares. A cidade foi destruída e de maneira irreversível. Aquele patrimônio jamais será recuperado.
Esse processo ainda não acabou. A feiura, que primeiro foi infectando o centro histórico, agora se espraia para os novos bairros que rapidamente vão se formando na periferia da cidade. São Germano, Santa Edwiges, Colina e Teles II para ficar em apenas pouquíssimos exemplos – nem vou citar o morro acima que tomou conta da Vila de Fátima e o Espírito Santo que cresce desordenadamente – são mostras mais que evidentes do descalabro e da ausência de qualquer projeto de crescimento ordenado da cidade em padrões minimamente civilizados.
Há mais ou menos 5 ou 6 anos, a polícia Federal do Mato Grosso desbaratou um laboratório de refino de cocaína na Zona Rural de Paraibuna, no Bairro do Porto. O laboratório do tráfico deveria abastecer todo o litoral norte de São Paulo e, claro, Paraibuna. Mais recentemente um traficante de Paraibuna (dá pra acreditar!!), foi preso pela polícia de São José dos Campos. Sem falar dos Bairros na Serra da Cidade que têm servido de guarida a bandidos de todos os calibres fugidos de Caraguatatuba.
É claro que o estado de desordem arquitetônica que toma conta da periferia da cidade vem sendo alimentado, há muitas décadas, por uma classe política local que não tem nenhum compromisso com a cidade e a qualidade de vida de seus habitantes. Não nos esqueçamos de que uma periferia cheia de problemas é um curral de votos de que os políticos locais não abrem mão. Um curral de votos e também um laboratório de enormes e graves problemas, tais como, violência, tráfico de drogas, prostituição, desestrutura familiar e tudo o mais que acompanha esse tipo de exploração.
Ainda é tempo para reverter este processo, pelo menos em parte, mas são necessárias coragem e vontade política. Mais atitude e menos covardia da classe política. 
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4 respostas em “A inação política e a feiura de Paraibuna

  1. Luciano, parebens pela proposta de reflexão para com o nosso município. Sem dúvido a falta de política de ocupação, fiscalização e regulamentação dos caminhos urbanísticos de nosso município são inspiradores para formar na sociedade (ou atrair para cá), indívios que não agregam valores a nossa sociedade, pelo contrário, se tornando uma cidade atraente a malfeitores. Sobre a questão do centro da cidade, gostaria de contar sobre uma iniciativa levado a cabo por mim, dentro da Comissão Municipal Setorial de Patrimônio Histórico. Após comflito travado entre membros dessa comissão para com a Igreja em função da derespeitosa/desnecessaria substituição dos azuleijos da faixada da igreja, vimos a necessidade, de trazer a cidade, um profissional com formação na área para o inicio de uma discussão sobre patrimônio cultural material e imaterial. Trouxemos para ministrar a palestra um historiador com mestrado e doutoramento na área de patrimônio e com vasto conhecimento sobre nossa cidade, uma vez que nosso município já havia sido foco de suas investigações acadêmicas. Fizemos ampla divulgação convidando pessoalmente representantes de entidades e instituições do municipio com interesse direto ao tema, vereadores, padre e mitra, juiz, promotor, prefeito, vice prefeito, membros da comissão municipal de patrimônio(ligada a prefeitura). Resultado: das intituições que se fizeram representadas na ocasião tivemos; membros da FC, dois vereadores (João Batista e Klinger) e o instituto, IHH Fauser, além de alguns munícipes. Isso demostra a preocupação generalizada sobre a questão pelas autoridades do município sobre as questões postas por você. Grande abraço e força no ativismo pela reflexão.

  2. Luciano, Pois é. Depois do caso dos azulejos sacros, o Prefeito fez as nomeações para o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, que já tinha previsão legal. Colocou lá apenas representantes do Poder Público, e ainda desinteressados pelo tema, exceto o Célio. Não há um representante da sociedade. Esse conselho, desde então nunca se reuniu… Isso demonstra a falta de preocupação com o patrimônio histórico material e imaterial. Abraço.

  3. Rogério, fui nomeada para fazer parte desse conselho e fui em todas as reuniões que marcaram. Infelizmente não teve continuação visto que as pessoas que foram nomeadas nao apareciam nas reuniões, não sei qual o motivo mas acredito que primeiro deveria perguntar e ver quem tem o interesse no assunto e depois fazer a nomeação, visto que tem pessoas que realmente não tem interesse.Tantas pessoas se interessam por isso, sendo assim o espaço deveria ser aberto para todos e não apenas para os funcionários e as vezes se veem obrigados a comparecer a tais reuniões.

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