Os Donos do Poder em Rio Preto

Luciano Alvarenga
Sergio Buarque de Holanda disse certa vez que a democracia no Brasil é um grande mal entendido. Nosso passado escravocrata, de mando, de senhorio de terras e gentes, de coronelismo enxada e voto está fincado em nós tornando a democracia um projeto ainda por ser construído. Funcionários e políticos sentem-se donos dos cargos que ocupam, fazem e desfazem de acordo com seus privados interesses. Não são escravocratas, mas continuam donos do pedaço.
Rio Preto é uma cidade dividida. Dividida entre uma parte arejada, moderna, que respira os melhores ares produzidos no país, e outra, arcaica, atrasada, paroquial, dominada por gente que se acha e, é, dona da cidade. O atropelamento do jovem jornalista Micael pelo vereador Nelson Ohno (PSB), é revelador dessa cultura retrógrada, autoritária que ainda inspira muito gente entre nós.
O movimento #vergonhariopreto é expressão dessa fricção entre uma cidade oxigenada, que quer mudanças, e outra que nada quer ou, melhor, precisa manter tudo como está. Manter o quê? O controle dos destinos da cidade em poucas e privilegiadas mãos. Assegurar que o poder político mantenha-se sob o controle dos de sempre, estes mesmos que mandam e disputam o poder entre eles há tanto tempo. Assegurar que a política continue sendo resultado da troca de candidatos compradores e eleitores vendedores de votos.
Assegurar que administração e gestão seja um gesto da benevolência de quem manda, “a cidade é nossa, mas pode ficar ai, ai!!”. A política municipal é uma expressão acabada de como pensam os Donos da cidade. Os políticos donos são escolhidos em geral para deputados, senadores ou prefeito da cidade, os vereadores são peões manipulados por àqueles, gentes escolhidas no meio do povo para apontar duas coisas.
Primeiro, é que quanto pior o vereador e sua inabilidade em ocupar o cargo a que foi eleito, melhor ele é manipulado e, mais evidente se torna a incapacidade do povo de votar e, portanto, de ser votado. Disso resulta que a cidade ao invés de olhar o sistema e como ele é controlado pelos Donos do Poder, prende os olhos apenas nos peões, julgando o “povo burro que não sabe votar” como o responsável pela tragédia política local. Segundo, é que cooptando por meio de privilégios e cargos bem pagos na máquina administrativa e acesso ao poder legislativo local manietado, os Donos do Poder criam uma subclasse de privilegiados, vereadores e funcionários que tudo farão para manter as coisas como estão.
A violência, resultado do atropelamento contra o jornalista Micael Pimentel, é a expressão do desespero dos vereadores, pequenos privilegiados, de perderem o espaço que ocupam no “cor$ção” dos Donos do Poder. É evidente que o surgimento do #vergonhariopreto trouxe à cena um elemento novo desconhecido. Ainda que expontaneista e sem muito direcionamento o fato é que esse movimento é a expressão de uma certa classe mais esclarecida de estudantes e profissionais liberais desencantados com a situação política local e, que já perceberam que as portas da cidade estão fechadas para eles.
Aqui temos dois elementos importantes. Um é o fato que os estudantes, na maioria proveniente de escolas particulares, já notaram que a realidade pós colégio ou cursinho é mais dura do que pensavam. E mais, eles podem não conseguir o espaço profissional que sentem que precisam conquistar.  Em relação aos profissionais liberais, pais daqueles estudantes, o que temos é uma situação geral de precariedade profissional que atinge a todos indistintamente, de advogados, jornalistas, médicos, enfermeiros, psicólogos, tradutores, delegados e soldados passando pelos eternos precarisados professores. Ora, são estes os mais descontentes com a classe política local, afinal, qual foi o pavio que ascendeu a fogueira senão o aumento salarial de quase 100% que os vereadores estavam a ponto de aprovar em 2011? Bem como os famigerados cargos comissionados (240), dispensados em boa parte dos casos a gente sem qualificação profissional com salários exorbitantes diante de uma classe de trabalhadores diplomados que assistem seus diplomas e poder aquisitivo diminuir dia a dia?
O atropelamento sem socorro protagonizado pelo ex policial militar e vereador Nelson Ohno é a imagem violenta de uma parte da cidade que não abrirá mão dos privilégios que o atraso lhe confere. A violência que emergiu nesse episódio irá se repetir e se agravar se os arcaicos e coronelescos políticos locais não forem superados por políticos mais conectados aos ventos da sociedade atual.
Rio Preto está diante nessa eleição de uma das melhores oportunidades de mudança de cultura política e de gestão da coisa pública dos últimos anos. 

Luciano Alvarenga, Sociólogo/PRP
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