Brasil, Suécia e o complexo de vira-latas revisitado

Brasil, Suécia e o complexo de vira-latas revisitado

Complexo de vira-lata segue assombrando alma brasileiraUm convite a visitar o passado. É e não poderia deixar de ser assim que encaro o duelo entre Brasil e Suécia, no lendário estádio Rasunda. Palco de nossa primeira conquista em Copas do Mundo. Foi lá que Pelé fez aquele gol mítico que nos acostumamos a ver naquela imagem em preto e branco desgastada pelo tempo.
Também é impossível não recordar o texto histórico “Complexo de vira-latas”, publicado antes da campanha vitoriosa da seleção canarinho. Décadas separam nosso primeiro título de nosso momento atual, mas como por ironia fina do destino convivemos com o mesmo complexo registrado primorosamente por Nelson Rodrigues.
A insegurança segue sendo um traço marcante do nosso povo em relação ao futebol e ao esporte em geral. Não me refiro ao benéfico senso-crítico que deve nortear discussões fundamentadas, mas na crença pueril de enxergar no outro as qualidades que nunca teremos.  Veja bem, o jogo é apenas um amistoso. Não vale nada. Mas, o sentimento do passado distante se assemelha muito ao atual.
Basta ver a reação pessimista ao desempenho de nossos atletas e da nossa seleção na Olímpiada de Londres. Para não deixar de citar, Nelson Rodrigues é ‘óbvio ululante’ que muito precisa ser feito. No entanto, tratar as conquistas dos atletas brasileiros de todas as modalidades com desdém não é a mais notável das atitudes.
Se antes o complexo de vira-latas era notado nas esquinas e nos botecos, hoje é nas redes sociais que o escárnio do brasileiro diante de sua própria imagem transborda. Como disse, décadas se passaram, mas é seguro dizer que vivemos em uma sociedade com fortes traços rodrigueanos.
Para se ter ideia, nesta segunda-feira, o jornal Folha de S.Paulo traz entrevistas com socialites paulistanas que debatem o tragicômico caso do Mensalão. Em determinado trecho, a dona Anna Maria Corsi, 71, manda essa pérola: “Sabe o que é isso? É nordestino querer fazer alguma coisa em São Paulo”, responde Anna. “E é erradíssimo. Eles têm de ficar lá, em Garanhuns [cidade de Lula], lá no fuuundo do Pernambuco, lá no fuuundo do Ceará. Aqui, não, aqui é de paulista e de paulistano. É por isso que isso está acontecendo”. Essa não é uma frase do início do século. Foi proferida em 2012. É só um exemplo isolado, mas ainda convivemos com fortes traços de preconceito regionalista, racial e de xenofobia.
E o que isso tem a ver com futebol? Ora, tudo. O futebol e a nossa relação com o esporte é reflexo direto de nossa identidade como povo. Esse possível questionamento me faz lembrar dos ‘idiotas da objetividade’, outra expressão clássica de Nelson Rodrigues. Hoje eles não estão mais restritos a redações de jornal. Invadiram esquinas, botequins e habitam perfis de redes sociais esbanjando empáfia e arrotando opiniões.  Até no futebol se fazem presentes, vide a regra fundamental de que ‘o que vale é os três pontos’. A vitória tratada com a mais vil vulgaridade. Como uma obrigação abjeta e cotidiana.
Evidente que muita coisa mudou de lá para cá. Evoluímos em muitos aspectos, regredimos em outros, mas no fundo ainda somos muito parecidos com nossos pais e avós. A seleção brasileira pode vencer ou perder da Suécia. Afinal, tudo isso é do jogo. Contudo, tenho certeza que muita gente vai seguir preferindo opinar sobre o cabelo de Neymar, brincos de seus companheiros ou qualquer outra coisa que não seja futebol.
Por fim, as conquistas gloriosas de craques como Pelé, Garrincha, Tostão, Rivelino, Romário, Zagallo e Ronaldo seguem sendo traídas pelo sentimento coletivo do brasileiro. Esse “narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, só para encerrar com outra pedrada rodrigueana.
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