Rio Preto: Caça a quadrilha põe policiais na mira do MP

Cidades
 
› Operação Queda d’água
São José do Rio Preto, 17 de Maio, 2012 – 4:10
Caça a quadrilha põe policiais na mira do MP

Allan de Abreu , Rita Magalhães e Raul Marques

Hamilton Pavam
Ministério Público desmonta esquema de exploração de caça-níqueis e lavagem de dinheiro

A Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público deflagraram ontem uma megaoperação contra esquema de exploração de caça-níqueis e lavagem de dinheiro em Rio Preto e Catanduva.

Segundo o Gaeco, braço da Promotoria que investiga o crime organizado, há indícios de pagamento de propina a policiais civis para que fizessem vista grossa à jogatina ou vazassem com antecedência operações da polícia contra os jogos de azar.

A operação de ontem foi batizada de Queda d’Água, alusão direta ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ao todo, foram cumpridos 26 mandados de busca e apreensão, incluindo a casa do delegado-assistente do 1º Distrito Policial, Mauro Truzzi Otero, do ex-investigador Ivan Batista de Freitas e do funcionário da Prefeitura de Rio Preto Carlos Pícolo, cedido para a Delegacia de Investigações Gerais (DIG), onde exerce o cargo de escriturário.

O trio começou a ser investigado em 2009, quando atuavam juntos na DIG. Outros quatro policiais foram citados em depoimento foram ontem à Corregedoria como participantes do esquema criminoso.

Duas pessoas foram presas em flagrante, uma delas por tráfico. Trata-se do empresário Drauzio Morino, já que, durante cumprimento do mandado de busca na casa dele, no condomínio de luxo Dahma 3, em Rio Preto, policiais encontraram 300 gramas de maconha.

Em 8 de junho de 2009, quando as investigações já estavam em curso, a Polícia Militar apreendeu 23 máquinas caça-níqueis, avaliadas em cerca de R$ 36,8 mil, na casa do empresário, no Dahma.

Na ocasião, os PMs não levaram a ocorrência para a delegacia, o que foi criticado pelo delegado Otero, que na época atuava na DIG. “Dessa forma, não conseguimos fazer um banco de dados e cruzar as informações”, afirmou. Segundo o MP, em uma casa do Dahma 3 – a nota não revela o proprietário do imóvel – estava sendo preparado um local para receber apostadores de caça-níqueis.

Foram apreendidos documentos, computadores, peças de computadores, celulares, além de máquinas caça-níqueis, apetrechos para a fabricação das máquinas e dinheiro, incluindo dólares – a quantia não foi divulgada. Na casa de Otero foram apreendidos documentos, telefones, uma arma sem documentação.

O esquema, de acordo com o Gaeco, era sofisticado: as máquinas eram instaladas nos imóveis por tempo reduzido, de um a três dias, e os clientes eram convidados por telefone. Além disso, os imóveis eram de pouco acesso à polícia, como casas em condomínio fechado, e alguns tinham bloqueadores de celular para evitar que os clientes delatassem o endereço à polícia durante o jogo.

Os “maquineiros”, como são conhecidos os donos das máquinas caça-níqueis, também contavam com proteção de policiais civis, com “pagamentos rotineiros” para evitar abordagem policial e serem avisados com antecedência de operações policiais contra jogos de azar.

“Caso comprovadas as práticas ilícitas por policiais, eles poderão ser responsabilizados criminalmente pelos delitos de corrupção passiva, formação de quadrilha e com a perda do cargo”, informa o Gaeco em nota.

Os promotores do Gaeco de Rio Preto, João Santa Terra, e Paulo Neuber, não quiseram dar entrevista. Delegados da Corregedoria também não se pronunciaram com a promessa de que falarão por meio de nota oficial, divulgada pela Secretaria de Segurança Pública, ao final da operação. Segundo a assessoria de imprensa, até a noite de ontem, os policiais permaneciam em diligência e deverão se manifestar na manhã de hoje.

Hamilton Pavam
Operação nos momentos em que eram cumpridos 26 mandados

Outro lado

Procurado, o delegado Otero não foi localizado na tarde de ontem no seu telefone celular para comentar o caso. O advogado Marcelo Truzzi Otero, irmão dele, disse desconhecer o suposto envolvimento do policial no esquema de caça-níqueis. O ex-investigador Ivan também não foi localizado ontem.

Busca mobiliza ‘exército’

Os mandados de busca e apreensão começaram a ser cumpridos às 6h de ontem. Participaram 51 policiais militares, seis delegados, 14 investigadores e escrivães, sete promotores de Rio Preto, Araçatuba e Ribeirão Preto, com o apoio de 25 viaturas e cinco motos.

Todo o material apreendido foi levado para a Corregedoria da Polícia Civil, que funciona no Jardim Urano, em Rio Preto. A todo instante chegavam viaturas da Polícia Militar e veículos descaracterizados com dezenas de computadores, CPUs, documentos pessoais e de empresas, telefones celulares, carcaças de caça-níqueis e dinheiro, inclusive dólar. O valor apreendido não foi divulgado.

Os objetos eram separados em sacos plásticos para posterior análise. Os 51 policiais militares foram divididos em várias equipes para cumprir os mandados de busca e apreensão. Os depoimentos dos envolvidos foram prestados na sede do Gaeco, na Vila Imperial.

Hamilton Pavam
Na busca e apreensão foram encontrados documentos e computadores

Ex-corregedor foi afastado

Em 2009, o então chefe da Corregedoria da Polícia Civil em Rio Preto, Luís Fernando Camargo da Cunha Lima, foi afastado do cargo após suspeita de vazar informações de diligências realizadas por subordinados contra policiais ligados à máfia do jogo de azar.

Na ocasião, o Diário apurou que um delegado investigado foi informado que seus telefones haviam sido grampeados por ordem da Justiça. Em março de 2011, a Corregedoria flagrou um cassino clandestino que funcionava em uma chácara de Catanduva. 23 pessoas foram detidas, incluindo a gerente do cassino e outros dois funcionários do local.

Somente no flagrante em Catanduva, três policiais, entre civis e militares, receberiam propina para vazar informações de eventuais operações policiais e dar proteção ao negócio ilícito da organização criminosa. A Corregedoria chegou até o cassino clandestino por meio de uma denúncia.

Hamilton Pavam
Sete promotores e seis delegados acompanharam as diligências

Motorista volta à Prefeitura

O motorista da Prefeitura de Rio Preto Carlos Picolo, que trabalha na Delegacia de Investigações Gerais (DIG), vai retornar para o Poder Público. Ele é suspeito de participar do esquema de caça-níqueis investigado pela Polícia Civil.

Uma equipe da corregedoria esteve ontem na casa de Picolo e apreendeu um CPU e um notebook. Segundo a Secretaria Municipal de Comunicação, Picolo é motorista concursado e estava cedido para a DIG, onde exercia o cargo de escriturário.

A pasta afirma que a Prefeitura não vai abrir investigação, já que nenhuma irregularidade foi cometida no exercício da função de motorista. Se a investigação policial comprovar eventual culpa, o motorista pode até perder o cargo. O advogado Edval Oliveira Rodrigues afirma que não existe acusação formal contra Picolo. “Não tem nada demais. Não existe nada contra ele.”


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