Ordem e Conciliação: a Elite e o Povo

Luciano Alvarenga

A higienização social no esvaziamento da Cracolândia em São Paulo e mais recentemente a invasão do bairro Pinheirinho em São José dos Campos são reveladores da maneira padronizada e secular de relacionamento das elites no Brasil com a massa do povo. E se 82% da população de São Paulo concordam com a invasão da cracolândia, como informou pesquisa recentemente publicada, não altera o que será dito abaixo, mas apenas confirma a hegemonia do pensamento dominante no Brasil.



Dois elementos são fundamentais para entender essa relação elite/povo. Ordem e Conciliação. O grande esforço das elites brasileiras desde pelo menos o Império foi a profunda necessidade de manter a ordem, custe o que custar. Custe o que custar explica a enorme violência com que se lança sobre o povo quando sente ameaçado o status quo dominante. A carnificina que se produziu pelas forças do Estado sobre as revoltas de Canudos e Contestado é o exemplo maior da necessidade de manter a ordem. À moda brasileira a ordem é filha da violência.


Por outro lado, a idéia de Conciliação é o padrão de relação que as elites sempre mantiveram entre elas quando seus interesses são conflitantes. Acomodar e conciliar interesses dominantes divergentes explica a sempre consolidada união das elites no Brasil. E isso desde sempre. Um dos casos mais emblemáticos da história recente é o impeachment do presidente Collor. Tendo em vista o fato de que Collor não concilia como deveria os interesses divergentes acasalados no poder e, mais o fato de que a população nas ruas forçava uma situação de possível desmantelamento da ordem o que se sucede é o impedimento do presidente pelos representantes da elite no congresso. A defenestração do poder não significa abandono do filho da elite, mas o contrário. A idéia era controlá-lo não destruí-lo.  Tirado do poder, mas absolvido no STF pelo relator do processo que foi anteriormente indicado pelo próprio Collor para ocupar a Corte Suprema. Esse é o padrão de relação das intra elites no Brasil, elas nunca divergem e se o fazem, conciliam.


Ordem para os de fora e conciliação entre os de dentro.


O dois casos citados no primeiro parágrafo são emblemas da maneira como as elites se relacionam com o povo. Como a idéia é apenas manter a ordem, uma vez que a conciliação é sempre o horizonte certo para solução dos conflitos intra elites, e a ordem passa, não pela introdução do povo num projeto de nação, mas simplesmente pela manutenção do equilíbrio de poder, a violência é o único elemento das elites para acomodar a cotidianidade da massa na sociedade.


A mais completa falta de projeto para as universidades paulistas – vide o caso da invasão da USP -, as universidades públicas paulistas estão em petição de miséria, a falta de comprometimento para além da higienização social nos espaços urbanos da cidade – cracolâncida – e, o conflito direto entre moradores pobres – São José dos Campos – numa área nobre e de importância capital para os interesses imobiliários nacionais revela mais uma vez a repetição do mesmo padrão. A manutenção da ordem por meio da violência. Isso notoriamente registrado pelo fato de que nas três ações o agente público designado pelo poder foram as forças militares.


Em nenhum dos casos surgiu qualquer outro elemento para a regulação dos conflitos que não fossem as forças policiais. O mesmo não vem se dando em relação às trágicas revelações sobre possíveis e graves desvios de dinheiro público e venda de sentenças no judiciário paulista e nacional (Elite). Nos dois casos citados no inicio do texto o protagonista político direto é o PSDB. E cito este fato apenas para afirmar que sem discurso e plano de governo que possa ser oferecido ao pais como alternativa ao partido instalado no poder, acabou o PSDB se reduzindo apenas a representante simplório dos interesses das classes que no Brasil sempre tiveram ótimas representações à direita.



Como as Elites do país não conhecem melhor maneira de se dirigir ao povo que não seja pela força policial (que se diga é apenas ferramenta do poder), o PSDB, ao arrepio de seus modernos fundadores, tornou-se apenas o receptáculo político dos eternos parasitas da nação para usar uma expressão do grande intelectual Manuel Bonfim em América Latina: males de origem. Luciano Alvarenga

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