Renato Martino

Incapacidade de sentir a falta
Renato Dias Martino

Então, passamos a existir no mundo a partir de certa condição básica onde nos é possível nos responsabilizar por ele. Sendo capazes de nos responsabilizar por nos mesmos, estamos então qualificados a nos responsabilizar por aquilo que está para além de nós, no mundo externo. E é dessa forma que vamos nos tornado reais, ou pertencentes daquilo que chamamos de realidade.

 

Quando se adquire o status de ser real, inclui-se também a condição de falível, passível de falhas, ou ainda, responsável por faltas. Então percebemos que esse processo que conduz a capacitação da responsabilização e então a realização, está intimamente ligado a experiência da falta. Dentro de certa perspectiva saudável do funcionamento mental, somos conduzidos a identificar as faltas e nos responsabilizar por isso. É essa a função mental que fundamenta a possibilidade de nos tornarmos reais.

Concomitantemente com a tomada de consciência da falta, o “eu” sofre a experiência da integração. Passa e ser mais completo e adquire maior autonomia sobre suas escolhas. Isso por reconhecer-se a si mesmo, também em suas limitações e se propondo, a partir daí, a expansão das habilidades e de suas possibilidades.


Para aquele que se aventurou, mesmo que brevemente nos estudos do desenvolvimento do pensar, não é novidade alguma que o bebê aprende a pensar justamente na ocasião da ausência da mãe. Isso se dá quando o instinto de nutrição na forma primitiva da pulsão, o incomoda e por alguma razão a mãe não pode estar prontamente à disposição. Iniciam-se então tentativas imaginativas ou alucinatórias quanto a essa experiência. O bebê tenta imaginar o que poderia acontecer para que aquele desconforto (gerado pela fome) do qual sua capacidade primitiva ainda não permite compreensão, seja extinto.

Dentro desse ensaio, quando o bebê pode ser capaz de recordar experiências suficientemente boas com a mãe (real), para que seja possível sustentar essa falta, abre-se então a possibilidade daquilo que chamaremos aqui de pensamento simbólico. A falta é assim, sustentada por um símbolo, que servirá de amparo até que o objeto desejado (a mãe real) retorne. A partir de certa experiência que confirma a mãe na realidade, passa-se a tolerar com maior capacidade os períodos de sua ausência.

Logo, a função simbólica é o que qualifica o grau de maturidade emocional, pois é a capacidade de tolerar a falta da mãe da qual se intuiu real. Isso não qualifica apenas para enfrentar a ausência materna na primeira infância, mas serve como um modelo de simbolização que evoluirá na função de tolerar todas as faltas que permearão a vida daquele que busca se tornar real.

Para o psicanalista Wilfred Bion (1897 – 1979), “A incapacidade de tolerar frustração poderá obstruir o desenvolvimento dos pensamentos e da capacidade de pensar” (Bion [1952], 1994, p. 131). Bion apoia que o bebê começa a pensar quando se torna capaz de toleras a falta da mãe.

Wilfred Bion (1897 – 1979)

“se a capacidade de tolerar a frustração for suficiente, o não-seio se transforma em pensamento, e desenvolve-se um aparelho para “pensá-lo” (…) A capacidade de tolerar a frustração, portanto, possibilita que a psique desenvolva o pensamento como um meio através do qual se torna mais tolerável a frustração que for tolerada” (Bion [1952], 1994, p.129).

No entanto, na incapacidade de simbolizar, o sujeito fica preso à confirmação compulsiva da realidade. Isso ocorre por não cofiar na experiência que pode ter com a realidade. Vê-se então, impelido a se certificar repetidamente se ainda existe. Mesmo sendo adulto o sujeito revela uma forma de se vincular com o mundo, com a configuração primitiva de um bebê, que se desespera quando precisa da mãe e não pode confirmar sua presença. Ou ainda pode, em casos mais severos, de maneira psicótica, desistir definitivamente desta mesma realidade. Através de recursos narcisistas, desvaloriza a realidade e se aprisiona dentro de si mesmo.

Talvez por esse motivo o ser humano venha se dedicando tanto a desenvolver recursos para se manter a maior parte do tempo acreditando na ilusão de que nada pode ser perdido realmente. Acreditando nisso, muito pouco ou quase nada se dedica a desenvolver a capacidade de suportar a situação de perda, ou de tolerar faltas.

Desenvolve métodos avançadas para tentar dar conta da criação de meios para que não se sinta a carência de ninguém e não sinta a falta de nada. Através de tecnologias aperfeiçoadas, cria aparelhos que o mantém interligado constantemente com o outro, para que não sinta que está distante, ou esqueça que perdeu.

Na medicina, cria técnicas de cirurgias plásticas cada vez mais eficazes para afastar a verdade de que seu corpo está perdendo a juventude e decaindo com a idade.

Por meio de medicamentos psiquiátricos também simula uma sanidade para afastar a realidade de seu desequilíbrio mental. Isso quando não despreza experiências fundamentais e num funcionamento esquizofrênico desvaloriza aquilo que na realidade nunca pode ter. Desdenha justamente por nunca ter vivido. Vínculos fundamentais como os com a mãe ou com o pai, que nunca esteve ali, perder o que (ou quem) então?

Esforçando-se então no intuito de uma tarefa danosa ao funcionamento saudável da mente, ele busca soluções para construir uma pseudo-realidade onde não se perde mais nada e também não se sente mais falta de ninguém.

Bion,W. R. [1952]. Uma teoria sobre o pensar. In: Estudos psicanalíticos revisados – Second thoughts. Rio de Janeiro: Imago, 1994.


Martino, R. D. Para Além da Clínica. São Paulo: Inteligencia 3, 2011.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

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