Costurado pelo avesso

por Luciano Alvarenga, sábado, 23 de julho de 2011 às 18:01
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Fica cada vez mais evidente a angústia e o descontentamento das pessoas com o tipo de vida que levam. O stress, a correria, a falta de tempo, a terceirização dos filhos, a dificuldade cada vez maior em partilhar a vida com alguém.
Estamos cercados por uma sociedade que se esconde. Esconde-se de seus medos, suas frustrações e de seus sonhos esquecidos. O curral da manada é preferível ao descampado de suas próprias escolhas.
Uma sociedade cheia de gente que não se encontra. Gente que goza muito e ama muito pouco. A cosmética esconde nossa feiúra e não revela nossa beleza. Estamos nos amando tanto que só os espelhos emparedados das academias é que verdadeiramente nos entendem. Nesses espelhos desejamos sexualmente a nós mesmos. Os sarados transam libidinosamente com seus próprios corpos.
A rua parece uma grande vitrine de corpos que se comparam, se mostram ao mesmo tempo em que se querem, se olham sem conseguir se comerem. Voltamos sempre frustrados da rua. Estamos entre o desejo carnal do consumo e a necessidade transcendente da posse.
Nascemos numa originalidade insuportável, por isso nos olhamos pelas lentes dos idiotas. Passamos os anos nos foto copiando até que sejamos letargicamente iguais. Aqui, no universo das academias, nos permitem apenas a igualdade dos contornos. Felicitamos-nos por sermos mais iguais do que os outros. Todos somos iguais, mas não comuns, pelo menos, é o que afirmamos.
A burrice informatizada é nosso desejo de cultura, o vazio de um, completa o vazio do outro, numa troca de mensagens cifradas. A informática e sua velocidade paranóica nos dão sentido, nos faz acreditar que temos alguma importância. A velocidade nos camufla, nos esconde de nossas neuroses. Não suportamos o peso dos filhos ausentes em nossa consciência, por isso corremos sistematicamente, para não precisarmos decidir em favor deles e contra nossos desejos insatisfeitos. Mães presentes são um ideal, mas quando reais, têm o péssimo hábito de nos lembrar que, ser mulher, agora, é outra coisa.
Qualquer coisa que precise de tempo para existir, não estará em conformidade com o que é importante. Por isso o insucesso dos amores de hoje, demoram demais. Orgasmos múltiplos estão na moda, não porque sejam bons, mas porque duram pouco. Quanto melhor a técnica, quanto mais no ponto, mais intenso e mais rápido. Afinal, precisamos estar sempre fazendo alguma coisa.
O fingimento é o sentimento que nos envolve. Fazemos todos parte de uma grande mentira em que cada um participa com sua anedota. Fingimos para que acreditem que somos mais importantes do que na verdade somos, fingimos para que nos amem com um amor mentiroso. Fingimos para que se sinta vanguarda quem, na verdade, é o atraso. Aplaudimos quem deveria ser vaiado, na esperança de sublimar a mediocridade de todos. Louvamos os rituais que nos afundam, mas que todos compartilham, pois, afinal, o mundo precisa continuar.
Somos tudo o que queríamos ser, mas muito pouco o que realmente somos. Dizemos aos novos que vivam e aproveitem, mas que não se esqueçam de fazer tudo como todo mundo faz, afinal “você precisa cuidar do seu futuro”. A vida é uma mentira, mas é boa a conta-gotas: antes pingar do que faltar. A maioria já aceitou que a vida vai de sexta à noite até domingo na hora do almoço. Não é o tempo que passa rápido, a vida que é curta. Ainda bem que há dois dias e meio para viver. Poderia ser pior.
Enfim, comemos carne com hormônio, o que pode até ser bom. Saboreamos vegetais com inseticida, pois eles nos protegem das pragas que poderiam tê-los comido. Compramos as roupas e os carros da moda com o dinheiro de terceiros. Moramos em pombais de três andares, o que também é bom, pois nos aproximam mais uns dos outros, de nossos medos, nossas neuroses, e vidas mal resolvidas. Vivemos na rua, porque nela é mais fácil esquecermos a vida que não temos.
Vivemos o avesso do que chamávamos de vida. A vida mesmo está numa propaganda de empreendimento imobiliário: lá sempre estará a vida que não podemos ter, mas até brigamos e não vivemos para fingir que, um dia, teremos.
Luciano Alvarenga.
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