“eu sei”, e daí!?

O uso do “eu sei”

Surrealismo de Salvador Dali

O uso do “eu sei”
Renato Dias Martino

Por que dizer “eu sei”?
Será porque sabemos realmente?
“Só sei que nada sei”.
Sócrates tomou essa máxima como seu lema e o imortalizou. Mas, se não conhecemos a nos mesmos, o que sabemos então? Estudamos anos a fio certa coisa e um dia nos damos conta que sabemos muito pouco sobre ela. A satisfação que obtemos com a sensação do “saber” é realmente gratificantes, mas penso ser útil encará-la como um domingo de descanso em uma semana de labuta, onde o ponto de interrogação é o norte do desenvolvimento e da expansão. Se não temos duvidas nos acomodamos. As certezas são as maiores ilusões criadas pela mente humana. Contentamo-nos com a certeza quando nos vimos incapazes de continuar a questionar e não porque estamos realmente certos.

Maurice Blanchot (1907 – 2003)

 Maurice Blanchot (1907 – 2003) diz: “La réponse est le malheur de la question”, “A resposta é a desgraça da pergunta” (2002). A única certeza é a morte, logo; buscar incessantemente certezas e garantias é o equivalente a buscarmos a morte. A morte da pesquisa, a morte do amor (sentimento rico em incertezas), a morte da busca da vida. “Navigare necesse; vivere non est necesse” no latim, “navegar é preciso, viver não é preciso”, frase de Pompeu, general romano (106-48 AC.), dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu. O poeta português Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), ressuscita a idéia com a condição de que “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. A criação parte da falta, criamos aquilo que ainda não existe. Se não existe, logo não sabemos.

Fernando Pessoa (1888 — 1935)

Quando dizemos: “eu sei”, encerramos a busca. Já sabemos, logo; não há nada a aprender. Muitas vezes pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção, ou de ignorar alguém. Quando respondemos automaticamente: “eu sei”, o que realmente dizemos é “não estou ouvindo o que você diz”. Assim, tiramos o valor do discurso do outro. É como se parássemos de ouvir por achar que já sabemos tudo o que há para saber.

Sempre que ameaçados nos vemos impelidos a nos defender. Pode-se dizer, “eu sei” quando encontrar-se tomado por ansiedade, enquanto se espera a vez de falar. Também quando, simplesmente não estamos dispostos ou interessados em ouvir. Seja qual for o motivo, essa reação impede que possamos aprender coisas que podem ser importantes. Em um ato de descrédito em si mesmo e na própria capacidade de aprender, criamos um abismo entre o “eu” e o outro.
O “eu sei” pode servir como uma defesa para aquele que se sente ignorante e envergonhado por realmente não saber. Defendendo-se assim, acaba por não aprender.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

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