Artigo: Luciano Alvarenga

Equilibrio
É possível que nenhuma geração antes de nós tenha experimentado a torrente de transformações e mudanças nos hábitos, valores, relacionamento e comportamento como estamos vivendo hoje. Entretanto, tão importante como as mudanças que se operam e, elas não são desprezíveis, o que confunde as pessoas e as deixa inseguras, ansiosas e angustiadas é a velocidade com que tudo acontece, a rapidez com que se modificam todas as coisas em nosso entorno. Não temos certeza nem mais sobre nossas próprias famílias. O passado não existe mais por que nunca consegue chegar até nós, o futuro chega tão rápido que não temos tempo nem de planejá-lo, o que sobrou foi a fugacidade do presente e a sensação de que não escaparemos dele; somos obrigados a correr cada vez mais rápido para permanecer no mesmo lugar.

A fugacidade da vida faz com que escolhas antes cercada de significados e rituais como casar e formar uma família, construir a casa e tecer os relacionamentos que nos acompanhariam pela vida como os amigos e colegas de trabalho, pareçam hoje coisas estranhas e sem significado. Casa, família e trabalho já foi o lugar onde as pessoas se sentiam protegidas, agora não mais. A sensação de que se está abandonado à própria sorte, a dúvida permanente de que seu casamento pode acabar a qualquer momento ou, que apesar de toda a dedicação, empenho e fidelidade seu emprego pode evaporar por uma razão que nada tenha haver com você mesmo, é que retira das pessoas a certeza e a confiança naqueles rituais, rituais que não garantem mais a perenidade das coisas, sejam elas importantes ou não.

O assassinato da garota Isabella Nardoni[1] pelas pessoas que eram responsáveis justamente para protegê-la é um subproduto dessa sociedade que não oferece mais referências onde se apoiar nem se nortear. Este crime revela que o real, entendido como uma sociedade minimamente equilibrada, ganhou os contornos antes presentes apenas na loucura, o de que o imprevisível e o imponderável são forças agora constitutivas da vida que podem nos ceifar e nos transtornar. A Isabella, Suzane Richthofen[2], o pai que estuprou a filha 24 anos na Áustria, entre milhares de histórias como estas não são mais episódios possíveis de serem diagnosticados como desvios, é a própria constituição dessa nova realidade chamada sociedade globalizada.
Muito provavelmente o que te manteve lendo este texto até aqui é a necessidade de se apoiar em alguma certeza, o desejo de que em meio ao caos urbano em que estamos prestes a mergulhar, possa ser possível encontrar alguém ou alguma coisa que permita ter uma vida ajustada e minimamente previsível. Este é o desafio para o século que se inicia, se preparar para construir aquilo mesmo sem o qual não se poderá viver, equilíbrio. Equilíbrio será o luxo que poucos conseguirão e todos vão desejar. Com os problemas ambientais crescentes, a violência urbana cada vez mais próxima, a competição feroz por um espaço e a dificuldade para se manter um relacionamento estável e durável com alguém, falar em equilíbrio será o mesmo que falar de um paraíso em meio a tormenta.
Mas viver de forma equilibrada será o grande projeto que todas as vidas terão que praticar. Assim como todas as mentes pensam em como substituir o petróleo por outras fontes de energia, o futuro próximo será pensar em como viver em equilíbrio com o meio ambiente, com o espaço urbano e especialmente e mais importante, consigo mesmo.
A palavra felicidade será substituída pelo Equilíbrio, e equilíbrio, para quem queira, é o que definirá felicidade. Certamente veremos escolas e instituições de ensino, tendo em suas grades disciplinas relacionadas a este tema. Ensinar as novas gerações a aprender o equilíbrio, construí-lo e propagá-lo será a principal função da escola num mundo onde conhecimento técnico será uma banalidade.
O amor, a família, e dois ou três amigos serão riquezas que teremos que aprender a tecer. Isso por que teremos uma sociedade sem uma cara definida, todo tipo possível de família; uma enorme infinidade de relacionamentos amorosos; um contingente cada vez maior de pessoas ganhando as vidas a partir de si mesmas; a religião será um cosmético que as pessoas trocarão a cada momento do ano e usarão de acordo com cada lugar. Isso significa dizer que vida será altamente complexa e problemática, e saber lidar com isso será o maior desafio.
Desfazer-se dos valores, hábitos e comportamentos que herdamos do século XX vai definir quem melhor estará preparado para se pensar nesta nova sociedade. As respostas e as perguntas que guiaram no passado e ainda guiam os recalcitrantes de nada nos servem neste momento da história humana. A velocidade das coisas nos obrigará a dar novas respostas a cada rodada de novas perguntas, ou melhor, novos problemas. Muitas pessoas ainda não se aperceberam que não estão mais no século XX, vivem como se nada tivesse mudado, embora já saibam que tudo mudou. O tempo em que tudo estava pronto e as respostas já eram conhecidas bastando a cada um apenas trilhar o caminho por onde todos andavam já não existe mais. Se antes era apenas fazer o que pais e avós fizeram para viver a vida sem sobressaltos e insegurança, agora lançar mão dessa estratégia é perder por WO. Não é apenas uma questão de cada um seguir o seu caminho, mas se você está preparado para saber qual é o melhor caminho para você seguir.

Existe uma intensa competição por mentes e corações, especialmente bolsos, sendo empreendidas por grandes organizações e corporações econômicas mundiais. Cada uma delas disputando cada consumidor a cada minuto do dia e da noite. Uma disputa que significa convencer a todos de que o produto, a idéia ou o comportamento à venda é o melhor que se pode e ter e esperar. Esta briga titânica não acontece sem alterar profundamente o modo de vida de cada habitante do planeta, esteja ele onde estiver. A TV e a internet estão ai para não deixar de fora desta arena absolutamente ninguém. Se pensar a própria vida é pensar que as escolhas que se faz não é apenas uma escolha que se tem a si mesmo como protagonista. Cada escolha significa trazer para dentro da própria vida todo o rol de conseqüência que a decisão envolve. Escolher é como mapear o que se deseja para a própria existência, e o resultado da escolha difere, no resultado, a quem escolhe e ao que foi escolhido.

Você tem certeza que quer o que deseja? Não se esqueça que o número daqueles que estão interessados em sua resposta é grande demais para você não considerar importante o que vai responder. O ato da escolha se reveste hoje de uma importância crucial, por que escolher significa se imbuir de um mundo inteiro de coisas que vem no pacote de sua escolha. E os momentos de escolha são permanentes e se repetem constantemente impondo um novo rol de opções sempre ligadas as escolhas passadas e que agora não podem mais ser revistas nem mudadas. Escolher é uma condenação a que todos estamos expostos, e do qual não poderemos nos livrar nem imaginar que esta ou aquela foi à última escolha que fizemos; nem devemos imaginar que não escolher seja uma forma de sair do jogo. Não escolher é uma escolha e, certamente uma escolha ruim. O tempo em que as escolhas eram ingênuas e bobas e significavam apenas decidir entre um tênis vermelho ou cinza já passou. Hoje escolher é mudar o DNA da própria existência. Para uma geração acostumada a se decidir desde os dois anos de idade, costume que logo se adquire com idas a supermercado, shoppings e internet, pensar que decidir por uma torta ou sorvete é tomar uma decisão, é certamente uma infantilidade. As escolhas realmente importantes e das quais pouco se fala, são aquelas que nos alteram e alteram a existência. Escolhas que falam de como se inserir no mundo, como se preparar e de qual forma melhor se prepara para a sociedade atual e futura. Escolhas que significam libertar-se e não amarrar-se, escolhas que amadureçam ao mesmo tempo em que geram possibilidades criativas; não escolhas que escravizam na mesma velocidade em que retiram todo o potencial e força de que se precisa nesta nova sociedade. Escolhas que permitam continuar escolhendo sempre, mas cada vez melhor. Escolher é saber ter escolha, e para isso é fundamental conhecimento. Aqui conhecimento não tem haver com formação acadêmica, tem haver com capacidade de viver bem no século que se inicia e que vai significar equilíbrio.
Entender a sociedade que desabrocha é saber dialogar com ela a partir de novos signos, significados e rituais será fundamental para se ter uma vida equilibrada e com possibilidade de realização pessoal. O número de informações disponíveis continuará crescendo e não demonstra ter um paradeiro a vista. Se tiver informações é bom saber o que fazer com elas é melhor. Não é a quantidade de informações que dirá o quanto se está integrado, mas saber quais informações interessa ao que já está planejado. A quantidade excessiva de informações poderá ser como um porre numa festa legal. Cada vez mais serão valorizadas as pessoas que sabem transformar informações, que nos mais todos têm, em conhecimento, conhecimento que deverá ser instrumentalizado para ajudar as pessoas e a sociedade a dar respostas e soluções para um mundo eivado de problemas.
Informação, conhecimento e atitude o tripé das pessoas que farão as melhores escolhas para si mesmas e para a sociedade onde estarão inseridas. O tempo de comunidades duradouras e associações que faziam aniversários de 50 anos acabaram, veremos a partir de agora a reunião de pessoas em torno de projetos e programas que uma vez realizados e prontos, marcarão também o fim desta comunidade. As pessoas se juntarão em prol da realização de objetivos, e não por afinidades emocionais ou culturais, ou mesmo por que estão empregadas no mesmo lugar. Estar preparado técnica, mas fundamentalmente emocionalmente é crucial a quem não deseja estar de fora de tais grupos e comunidades. Pessoas capazes de traduzir a realidade e seus problemas em projetos e soluções serão as mais requisitadas pela sociedade e pelas empresas. Se as corporações econômicas passaram o século XX tirando da Terra sua riqueza, vão passar este novo século colocando o que for possível de volta, e para isso necessitarão de profissionais capazes de entender o que isso significa.
 O sobrenome do Século XXI é solução, solução para uma sociedade mergulhada em problemas e que terá um prazo de validade para resolvê-los. Não haverá espaço aos imaturos, aos ignorantes de qualquer tipo, aos incapazes de transformarem talentos em soluções de problemas. O avanço tecnológico não vai parar agora, irá continuar e cada vez mais rápido, e a cada avanço do conhecimento corresponde a um novo homem que o próprio avanço cuida de gerar. É disso que se trata quando se fala em conhecimento e como se inserir neste mundo novo. Novo mundo significa novo homem, novo homem significa criar um novo mundo, dialética.
Pense a própria formação não como uma somatória de conhecimentos inúteis, destes que as escolas ainda insistem em passar, mas como um exercício permanente de entender como as coisas funcionam e qual a melhor forma de resolvê-las. Tudo isso significa pensar a própria vida como algo que não pode ser vivida de qualquer forma. Viver de qualquer forma é não ter controle dos resultados que se obterá. A idéia de que as coisas mudam rapidamente e devemos estar preparados para mudanças, exige também um norte sobre o que se deseja e a melhor forma de se obter um bom resultado e, bom resultado insisto, é equilíbrio. Esta questão estará colocada para as mulheres de forma bastante particular uma vez que são elas que decidem junto com os homens o formato que se deseja em termos de família. Ter filhos ou não, e a que tempo ainda é uma decisão centrada na figura da mulher. E ter filhos como já é possível notar, é e será uma atitude cada vez mais complicada e complexa e que exigirá uma certeza muito grande a respeito do que se deseja com tal escolha. Ser mulher não é o mesmo que ser mãe, e nem todas as mulheres querem ser mães embora adorem ser mulheres. Ter filhos é querer construir um ser humano, é isso o que você quer? Esta questão precisa ser respondida com muita certeza, por que o mundo vai precisar de grandes seres humanos e não mais problemas.
Foto Luciano Alvarenga


[1] 29 de março de 2008. Garota de 10 anos de família classe média assassinada pelo pai e madrasta no apartamento onde morava em São Paulo/Brasil.
[2] Garota, classe média alta, de 21 anos que matou os pais a pauladas ajudados pelo namorado e pelo cunhado.
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