Criança na internet e o conteúdo impróprio


Renato Dias Martino – Psicólogo
Gostaria de convidar para pensarmos a questão da criança que tem acesso na internet a conteúdos impróprios ou proibidos. Percebo que o assunto vem sendo extremamente discutido entre profissionais da área da saúde mental e também entre educadores. Tentativas diagnósticas são levantadas por profissionais psicólogos e pedagogos de várias abordagens teóricas para suprir a crescente demanda de respostas e soluções para esse problema que cresce assim como cresce o acesso ao mundo on-line. Nesse mesmo ritmo cresce a pressa por obter soluções breves, práticas e certeiras para esse problema que emerge na sociedade como bolhas de gás num copo de coca cola, nos fast-food da vida. Sabe, aquele lugar onde se entra com o carro, se pega o lanche e sai dirigindo e comendo ao mesmo tempo?
Sim, não é novidade que vivemos na era “fast” e não só para os “foods”, mas para tudo que se imagina, então por que não para “fast-psic”?
Bem, o que vemos então, são profissionais propondo que, a essas crianças que um dia foram abandonadas na frente de um computador, pois os pais tinham “mais o que fazer”, tenham agora, regras duras para defende-los do perigo os rondando na rede. 

“As regras que nascem de um ambiente rico em afeto e verdade são regras internas, muito mais próxima da ética do que daquilo que chamamos moral e que na realidade só se sustenta sob os olhos da autoridade. Regras morais se dissolvem rapidamente enquanto a autoridade se distrai. Aquele que aprendeu ser respeitado dentro do lar, certamente não se envolverá em qualquer que seja a relação que não ofereça respeito”.
Entretanto, não é necessário ser um profissional da psicologia para perceber que regras duras só existem para serem quebradas e transpostas. Quanto mais duramente são impostas, tanto maior é o desejo de transpô-las. Agora, pensemos essa experiência na criança, vivendo em sua idade, uma fase da existência psíquica onde se apóiam muito mais nas ilusões e imaginações que cria, do que na realidade dos fatos que compartilha com os adultos.
Se concordarmos até aqui, me parece então, que seria desnecessária mais argumentação, para perceber que medidas apressadas e com resultados eficazes e breves, estão distantes, nesse caso. Mas, me parece muito interessante nos atermos um pouco mais em certa questão que julgo de central importância.
Para uma criança, ser desejada é algo que está à cima de qualquer que seja o anseio. E isso é sinal de saúde mental, pois uma criança que elegeu qualquer que seja o outro objeto de interesse que não seja o da companhia do outro, certamente precisa de cuidado.

De inicio e na fase mais importante do desenvolvimento da vida emocional da criança, o desejo e

o amor dos pais ( ou daquele que ocupou esse lugar) deve suprir toda necessidade que demanda dela. A partir de uma base suficientemente boa, a criança então, inicia a expansão à procura de novas experiências externas, mas com a realidade de que foi amada no seio de seu lar.

Entretanto, essa criança tentará ser desejada por seus pais ou aquele que ocupa esse papel, de todas as maneiras possíveis. Só se esgotará o esforço nessa direção quando realmente não puder mais fugir da realidade de que não terá mesmo isso. A partir daí buscará ser desejada de outras formas e em outros lugares, carregando uma enorme magoa pela experiência frustrada.
Falamos aqui de uma criança reprimida em seu desejo central, quando não conseguiu afeto necessário em lugar seguro, busca então, algo externo pra satisfazer seus desejos. Isso se nos apoiarmos aqui no pensamento psicanalítico que parte de Sigmund Freud (1856 – 1930) e se expande a cada dia mais.
Pensemos então, isso acontecendo numa época onde não existe muita capacidade de escolha. Torna-se um alvo fácil para os convites on-line.
Quem procura algo proibido só pode estar fugindo de outro algo. Mas, será que alguém fugiria se o lar fosse um ambiente onde se cultivasse a verdade com muito amor? Chegamos então no cerne da questão.
O conteúdo impróprio ou proibido é um convite que vem com a proposta tentadora e vingativa de libertar dos desejos frustrados do amor e da verdade dos pais.
As regras que nascem de um ambiente rico em afeto e verdade são regras internas, muito mais próxima da ética do que daquilo que chamamos moral e que na realidade só se sustenta sob os olhos da autoridade. Regras morais se dissolvem rapidamente enquanto a autoridade se distrai. Aquele que aprendeu ser respeitado dentro do lar, certamente não se envolverá em qualquer que seja a relação que não ofereça respeito.
Prof. Renato Dias Martino
é psicoterapeuta e músico

Fone: 17-30113866 renatodiasmartino@hotmail.com
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