Artigo: Luciano Alvarenga

As palavras envelheceram ou nós que perdemos o sentido
Entre tantas crises atualmente existentes, emocional, afetiva, existencial, temos outra tão grave, senão mais, que as anteriores. Trata-se da crise das palavras. As palavras perderam a força, não explicam mais, não são suficientes para traduzir a gama cada vez mais variável dos sentimentos novos, das experiências diferentes que estamos vivendo atualmente. Mas podemos também nos perguntar, as palavras envelheceram ou nós é que não aceitamos os seus significados, suas exigências?
Conversando com uma pessoa muito próxima, chegamos à conclusão de que as palavras não estão ajudando muito em nosso esforço de entender e perceber o que o outro vive e sente. O que significam as palavras namoro, casamento, estar junto, amor, família? Ou mesmo realização, satisfação, sucesso? Não significam nada, ou muito pouco, isso também por queremos que elas falem coisas que não cabem em seus sentidos originais. Temos a impressão que as palavras não nos ajudam, ou ajudam e não aceitamos os seus termos?
As palavras que, no passado, nos ajudaram a entender o mundo, envelheceram, perderam a capacidade de serem guias, de serem intérpretes da realidade. Transformaram-se em mapas obsoletos e desatualizados, que não sabem ainda da existência das novas ruas, dos novos bairros ou das novas estradas recentemente abertas. Assim, quando falamos do Natal, precisamos explicar, logo em seguida, que é sobre o Natal de antigamente que estamos falando porque o atual nada significa. Quando falamos que queremos conhecer alguém legal, precisamos rapidamente dizer que isso não significa necessariamente casar, morar junto, mas outra coisa que você explica, explica de novo, mas ninguém compreende.
Conhecer alguém legal não é o mesmo que respeitá-la, construir um relacionamento ético e amar? Amar é antes de tudo compromisso com respeito, compromisso é laço, é casamento, seja lá qual for a forma, mas é fundamentalmente o compromisso. Será que não estamos querendo amar sem compromisso?
A palavra Natal que enfraqueceu ou o significado do nascimento é que nada mais significa? O Natal é Natal apenas quando é de antigamente, ou perdemos a capacidade de amar, nos solidarizarmos nos responsabilizarmos pela idéia de amor, vida e solidariedade, que no Natal é a solidariedade em primeiro lugar pela família?
O mundo que as palavras permitiram ser compreendido desmancha-se rapidamente, dando surgimento a outro que ainda não entendemos, que não temos como compreender. Ainda assim, muitos de nós investimos grandes somas emocionais e colocamos enormes expectativas em coisas e vivências possíveis, mas que, por ser a cartografia do passado, dificilmente se cumprirão da forma como se cumpriam antes. Mas as coisas de antigamente não acontecem agora por que os tempos mudaram ou por que mudamos nós? Mudamos para coisas melhores ou apenas mudamos? E nos transformamos em pessoas cheias de vida, ou apenas nos esvaziamos daquelas coisas que as palavras explicavam e que ao mesmo tempo nos explicava e, por fim, nos davam sentido? As palavras perderam o significado ou, nós é que nos perdemos dos sentidos?
As palavras, que nada mais dizem, nos dizem contudo, de forma clara e inequívoca uma última coisa: estamos em outra sociedade, com outros códigos, outros termos e significados. Se as palavras, que traduziam sonhos, desejos, expectativas e mundos possíveis, nada mais dizem, dizem, em seus últimos suspiros, que é preciso nos entendermos com esse novo tempo que emerge. Será então que é isso que explica por que nos sentimos tão perdidos hoje? Nesse sentido cabe a pergunta, as palavras perderam o significado por que se desgastaram com o uso, ou nós não gostamos nem queremos acreditar nos significados que elas possuem? O mundo é o que é pela falta de palavras que falem de um mundo melhor.
Se você pensou em abrir um dicionário para buscar palavras novas que substituam as antigas, não perca tempo. As palavras não morrem o que morre é a realidade que elas descrevem. E se a realidade é um mundo vazio, sem valores, angustiado e triste, precisamos voltar àquelas palavras, as antigas, que tem a força de recriar a realidade que seja esperançosa, amorosa e solidária.  Luciano Alvarenga, Sociólogo
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