GOLEIRO BRUNO: A REALIDADE DO ESPETÁCULO

O caso “goleiro Bruno” traz à tona as profundezas da vida urbana neste início de século no Brasil. De país pobre, desigual e rural o Brasil se tornou urbano, muito mais rico e, no entanto, ainda profundamente desigual. De garoto pobre de família desestruturada, assumiu, pelos descasos do destino, um lugar na mesa dos afortunados.

Ao lado da felicidade do consumo e dos celulares multifuncionais cresce uma espécie de ódio contra a vida. É como se a vida não valesse mais que os presentes que nos damos. Ou pior, a vida nada vale fora dos dispositivos de consumo e fama. Enquanto os ricos, ou os poucos “sortudos” que conseguem um lugar ao lado deles jogam na cara da maioria sua riqueza, sua vida de prazeres, compras, festas, carrões, mulheres e que tais, aquela maioria assiste a tudo com cada vez mais desejos não realizados, sonhos esquecidos, vidas partidas e um desprezo pela vida que hora e outra se mostra em assassinatos macabros, violências gratuitas, horrores inexplicáveis.

É claro que Bruno se imaginou acima da lei dos homens; astro, rico e celebrizado pelo espetáculo esportivo, não seria uma moça ansiosa para ter o que o goleiro já possuía que o impediria de fazer o que bem quisesse. Mas não são justamente os ricos, os milionários acompanhados de advogados bem pagos e uma justiça leniente que fazem o que bem entendem, praticam qualquer violência e nada dizem, nada pagam, nada respondem? No Brasil ser rico é tudo poder, sempre foi assim. Os casos impunes de gente rica que praticou as piores atrocidades são de todos conhecidos. Aqui foi a cilada onde caiu Bruno, imaginou-se a salvo pela fama e dinheiro que possuía. “Quem prestaria a atenção numa moça qualquer desejosa de melhor sorte”, deve ter pensado Bruno. Quem prestou atenção nele quando estava na mesma situação?

Bruno e Elisa são as pontas de uma mesma realidade: o desejo incontrolável de evadir-se da invisibilidade e da pobreza. A febre que toma conta de uma parte da juventude brasileira neste início de século é a fama, o dinheiro fácil, a vida sem freios nem regulação alguma, o desejo de ter tudo o que de bom e melhor é possível viver nestes tempos. Mas não é apenas ter, é sentir, experimentar. A ideia já muito bem compreendida é a de ter e viver e não construir e aprender. Os modelos desta nova forma de passar pela vida é uma elite social e econômica hedonista, vazia, deletéria, degradante, que desistiu de si mesma e do país. Os pobres praticam aqui embaixo o que os ricos praticam lá em cima. É a degradação da sociedade de cima a baixo.

A morte de Elisa é o lado errado do que deu certo na vida de Bruno. Mas como o que deu certo pode estar errado? Bruno foi projetado da miséria material em que viveu para a miséria do espetáculo em que passou a viver; o goleiro era um espetáculo, mas Bruno era real; Elisa procurava o espetáculo onde queria um lugar, encontrou Bruno, a realidade da onde desejava escapar. O desprezo pela vida que Bruno aprendeu enquanto lutava por um espaço na sociedade, desprezo que viveu pelo abandono da mãe, o desconhecimento do pai, Bruno praticou contra Elisa.

Elisa morreu, mas quantos não são massacrados, humilhados, desprezados, deixados de lado todos os dias, esquecidos nesta corrida em que estamos por um lugar ao sol. Elisa é a vítima numa sociedade de mercado que produz vítimas todos os dias. Elisa ficamos conhecendo porque perto demais dos holofotes do sucesso para poder passar desapercebida, mas quantas Elisas anônimas morrem todos os dias que nunca saberemos quem foram?

Bruno o herói, o modelo de sucesso esportivo que virou vilão, mas quantos vilões, geralmente muito ricos, ainda passam por heróis e que desconhecemos?

Luciano Alvarenga

Anúncios

2 respostas em “GOLEIRO BRUNO: A REALIDADE DO ESPETÁCULO

  1. Ótimo comentário sobre o assunto. Até me surpreendi, não por vir do autor em questão, mas apenas por ler, pela primeira vez, uma observação, pelo menos ao que me parece, onde percebe-se que ambos são, ao mesmo tempo, culpados e vítimas de uma mesma engrenagem, conhecida como, cruel realidade onde a miséria e a ganância tornam um pai assassino e uma mãe "infanticida" por tentar comercializar o próprio filho tornando-o apenas uma mercadoria – lei maior do capitalismo, como meio de acesso aos prazeres do dinheiro, aliás, o mesmo que a vitimou. Bom…vítima? Pensando bem, vítimia mesmo é aquela que não tem culpa alguma, só existe uma, o filho que nunca teve o mais precioso e impagável amor, o de pai e o de mãe!Marcelo Dâmaso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s