Cidades-bagaço

Luciano Alvarenga

Se o agronegócio da cana e do biodiesel se desenvolve sem que as cidades e as pessoas moradoras desta região (caracterizada por dezenas de pequenas cidades) participem do processo de riqueza, visto receberem apenas residualmente uma ínfima parte representada por salários, no mais das vezes baixos, o que percebemos também, é o desenvolvimento crônico de uma mentalidade assentada na marginalidade. Marginalidade aqui entendida como estar à margem e não na criminalidade, ainda que a criminalidade possa aparecer nessas condições como consequência do desenvolvimento em questão.
A riqueza do agrobusiness, que, em tese, deveria representar o enriquecimento da região, possível de se ver em melhores e mais organizadas cidades, com melhor infra-estrutura urbana, com políticas públicas eficientes para crianças, jovens e mulheres em condição de fragilidade, é canalizada toda ela para grandes centros econômico-financeiros mundiais sem que as pessoas que convivem diariamente com a realidade da cana disso tirem algum proveito.
A riqueza do solo, os estoques de água potável, os remanescentes de florestas da região, o pouco que resta da fauna, tudo isso é sugado, destruído, usado, aproveitado sem que as pessoas, moradoras há décadas destas cidades, participem e aproveitem essa riqueza. A migração de pessoas ainda mais pobres e destituídas de outras regiões do país, para ocuparem os lugares mais degradantes que, por aqui, poucos querem se dispor a ocupar, criam nestas pequenas cidades-bagaço um clima de ocupação sazonal por uma população sem vínculos locais, sem apoio, exploradas durante os períodos de colheita e logo depois largadas para voltarem, ou não, a seus estados de origem.
Aos jovens locais, com pouca escolaridade, sem qualificação técnica, preparo, nem educação, mesmo a escolaridade média, resta apenas dividir espaço com os migrantes por trabalho nas usinas, ou migrarem para cidades maiores, como Rio Preto, em busca de melhor sorte.
O que chama a atenção também é o fato de tanta riqueza produzida a poucas centenas de metros de pessoas tão destituídas de possibilidades fomentar o que chamei acima de cultura da marginalidade. Ou a ideia entre os jovens mais pobres, fundamentalmente estudantes das escolas públicas, de que a eles não resta outra coisa senão aceitar a sina que lhes é oferecida.
A apatia, a desilusão, falta de ânimo e abatimento que encontrei entre muitos jovens nessas cidades (no projeto por mim desenvolvido em parceria com a FJB) são sentimentos representativos dos sinais na alma da riqueza do agronegócio que não chega às pessoas como possibilidades de melhores condições de vida. Pequenas cidades com características sociais e culturais mais rurais do que urbanas, com serviços médicos e educacionais muito precários, e com longa história de falta de perspectiva, cria nas gerações mais novas, adolescentes e jovens, a certeza de que nada é possível fazer para mudar sua situação. A apatia e desilusão atual são, portanto, frutos de uma realidade sempre pobre de possibilidades, ainda que, hoje, essas pequenas cidades estejam cercadas por uma imensa e moderna indústria de conexões globais, que é o agronegócio da cana.
Se o resultado, de um lado, é a conformação com a situação de exclusão, aceitando ser mais um na história familiar a encarar a pobreza e a falta de saída, o que se vê, por outro lado, são muitos jovens se enfileirarem na multinacional da droga, seja como consumidores de crack, com morte certa, seja como pequenos traficantes.
O agronegócio da cana no interior de São Paulo, assim como no país todo, reproduz a já conhecida fórmula do crescimento econômico sem desenvolvimento social. As cidades-bagaço são o resultado renovado dessa fórmula. Luciano Alvarenga

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