Os colaterais do Agronegócio

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Luciano Alvarenga

Quem nasceu e cresceu em uma cidade pequena, sem recursos, sem possibilidades culturais, sociais e econômicas sabe das imensas dificuldades em conseguir estudar e se desenvolver. Pequenos passos, em cidades como essas, são provenientes de esforços hercúleos.
Nos anos de 2008 e 2009 tive a oportunidade de desenvolver, como Coordenador Geral de Extensão, um projeto na Faculdade de José Bonifácio que consistia em estabelecer uma aproximação entre a FJB e o público jovem secundarista da região.
Visitei naqueles dois anos mais de 30 escolas públicas estaduais na Região de José Bonifácio, perfazendo pelo menos 25 cidades. Fiz, no máximo, quatro palestras em cada escola e, no mínimo, duas. A realidade que me descortinou dessa experiência vai além da constatação, já bastante conhecida, da precariedade da escola pública estadual. A escola é reflexo da cidade que a abriga.
Cidades cercadas, quase invadidas, pelo agronegócio da cana e seus derivados como o álcool, o que se vê em quase toda a região de José Bonifácio, são realidades completamente díspares. De um lado, a grandiosidade, extensão e a riqueza que emergem dos empoeirados campos plantados de cana, do outro, cidades pobres, precárias, atrasadas, adolescentes sem oportunidades, grande número de botecos e adultos semidesempregados. Cidades tomadas por imensas carretas, treminhões, que, não raras vezes, cruzam as cidades carregadas de cana levantando imensas nuvens de poeira e deixando atrás de si um cenário desolador de sujeira e poluição.
A escola aqui é uma consequência miserável do espetáculo do agronegócio que gera riqueza a alguns e pobreza à maioria. Interessante observar que é nesse setor onde se encontram as únicas possibilidades de emprego aos mais pobres e desfavorecidos. Por que a riqueza do agronegócio não gera a prosperidade daquelas cidades? O conjunto de coisas que engloba classe política descomprometida, corrupção e falta de projetos que articulem sociedade civil, usinas e poder público certamente explica boa parte do problema.
As escolas e os jovens nessas cidades vivem em condição de abandono. A maioria, especialmente alunos do período noturno, não acredita que possa superar a barreira da pobreza e impossibilidade ali existentes. Terminar o Ensino Médio, para os poucos que lá chegam, é apenas um pequeno presente a si mesmos, nada mais do que isso; uma vez que para eles a escola de nada serve.
Afora alguns diretores de escola e outros tantos professores comprometidos e empenhados em ajudar estes alunos, o que sobra é a inviabilidade crônica. É estranho falar sobre isso numa região tão rica do Estado de São Paulo, ainda mais em cidades pequenas, que sempre nos remetem a uma ideia bucólica, mas a verdade é que ao lado do agronegócio caminham os que estão sendo descartados, os redundantes, os bagaços da cana.
Outro negócio que cresce nessas cidades é a multinacional da droga, calcadas no pó e no crack. Aqui se encaminham muitos jovens para fazer carreira. Luciano Alvarenga, Sociólogo

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Uma resposta em “Os colaterais do Agronegócio

  1. Poxa que legal!Eu vejo que em Mirassol se vc pergunta para algum jovem: "E aí, que série você está?", e ele diz: "já terminei", e você: "Nossa que bom, já é formado e tão jovem", e ele:"já terminei o terceiro colegial".Eles não têm espectativa de crescimento profissional, não têm aquela ambição(boa), nada.Sara 1º ano PP- Unilago

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