Amigos do prazer ou do compromisso?

Por Luciano Alvarenga
Os homossexuais, ao lado das prostitutas, sempre foram um grupo marginal. Tratados como párias, doentes e pervertidos sua trajetória pela história hoje é bastante documentada e revela a situação de preconceito e inaceitação social a que sempre estiveram expostos.
Os homossexuais têm sua luta por reconhecimento e aceitação fortalecida, especialmente, a partir dos anos 1960; ainda que esta luta já venha de muito antes. O recente filme “Milk – a voz da igualdade” conta a história do primeiro ativista gay, Harvey Milk, a se eleger (1977) no serviço público americano. Aliás, eleito num ano e morto no outro.
Vanguarda na sociedade, uma vez que a bandeira dos direitos gays, numa sociedade marcada pelo casamento heterossexual, pela moral familiar tradicional e pela religiosidade cristã, certamente não era vista com bons olhos, tamanha ousadia e demanda de direitos. Aliás, homossexuais e mulheres têm, nestes últimos anos, momento fundamental de transformação de suas realidades.
Dando um salto no tempo, quem são os homossexuais, o que querem e qual sua relação com a sociedade e da sociedade com eles, hoje? A sociedade brasileira, que viu muito pouco, por aqui, daquela agitação toda produzida nos Estados Unidos e na Europa, ainda hoje não vê nem se relaciona bem com este grupo. Ainda que consideremos os espaços conquistados e a visibilidade alcançada pelos homossexuais, certamente eles ainda vivem fortemente o preconceito e a discriminação num país marcado pelo caráter interiorano e cultura machista.
Os recentes imbróglios envolvendo o heterossexual Dourado, BBB10, e suas declarações a respeito dos homossexuais evidenciam a dificuldade da sociedade em lidar com o tema. Casamento, mulheres, família, homens, filhos e homossexuais não sabem o que são, nem o que querem nem para onde vão. Vivendo ambiguamente na marginalidade e fora dela, posto que os homossexuais numa sociedade como a nossa convivem também com o fosso cultural produzido pela marginalidade social e econômica (um homossexual pobre lida com uma ordem de problemas e preconceitos diversos dos seus homônimos acima na pirâmide social), o fato é que a agenda dos homossexuais pode ser muitas vezes tão conservadora quanto era a de muitos heterossexuais 50 anos atrás.
Sendo um grupo historicamente marginal, portanto, mais afeito a demandas legais e culturais fronteiriças, o fato hoje é que os homossexuais paradoxalmente querem ser incluídos e não apenas aceitos. Enquanto a família tradicional pai-mãe-filhos se dissolve em meio às mudanças da sociedade global, a principal bandeira do movimento, se é que ainda é possível falar em movimento, é a da possibilidade legal deles, os homossexuais, constituírem uma família com todos os pingos e is possíveis. Enquanto a família perde sua importância social, o casamento heterossexual vive, talvez, a pior de suas crises, as mulheres cheias de perguntas, ainda mal respondidas, sobre suas conquistas ou conquistas agora discutidas se realmente foram conquistas, ou, ainda, atormentadas com questões de maternidade em uma sociedade que não gera mais filhos, mas consumidores; enquanto homens se calam e agacham numa crise subjetiva que pasteurizou sua identidade pública num mar de gentes e grupos; os homossexuais vêm a público reivindicar seu direito a ter uma família.
Quando todos os modelos são questionados (ressalve-se que no Brasil a coisa está acontecendo com 50 anos de atraso), todos os modos de convivência são transtornados, os papéis sociais rasgados, aquele grupo, que sempre caminhou nas franjas da sociedade e esteve ao lado das bandeiras as mais heterodoxas de cada época, assume hoje que quer ser tradicional e ortodoxo. Pergunte-se se os preconceitos e homofobias que, vira e mexe, ressurgem com forças renovadas, não nascem hoje desse desajuste entre um homem e mulher heterossexuais em crise e um homossexual reivindicando os papéis largados por aqueles dois. Em uma palavra, os homossexuais paradoxalmente estão propondo a revitalização da família.
A homofobia, questão fundamental e atrelada aquela, pode ser, em alguma medida, o olhar desencontrado de posições e papéis que estão ou querem se inverter. Para o homossexual, muitas vezes, qualquer fala ou sinal improvável desperta o alerta de preconceito, quando muitas vezes, na verdade, é apenas um heterossexual pisando um chão movediço, líquido e cheio de incertezas sobre ele mesmo. Em outros termos, as identidades, sejam elas hetero ou homo, estão todas desmanchadas, alquebradas, espatifadas e dificilmente serão revitalizadas tais quais eram. Homofobia há certamente, e o direito está aí para confirmá-lo. Antropologicamente, no entanto, a questão é outra.
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