O desejo matou Isabella

Texto publicado na época do assassinato da garota Isabella
A morte ainda inexplicável da garota Isabella coloca um grande ponto de interrogação na cabeça de todos, o de que alguma coisa não anda bem entre nós; que tipo de sociedade estamos criando? O fato é que alguém entrou naquele apartamento e estrangulou uma garota de cinco anos. Estamos acostumados a achar natural que os pobres se matem, mas não quando atinge estratos mais privilegiados da sociedade.
Quando Suzanne Richthofen foi acusada e presa de ter arquitetado a morte a paulada dos próprios pais, me ocorreu que nenhum pai a partir daquele momento poderia dormir com as portas abertas. Este crime levantou a questão de que entre pais e filhos podem existir mais sentimentos do que aqueles a que se está acostumado. Pai matando os filhos ou o contrário se transformou em algo tão comum, que não se trata mais de graves patologias individuais, mas é sim um fenômeno social. A morte de Isabella, assim como o caso de Suzzane Richthofen, tem suas raízes naquilo que desejamos. A morte nestes casos é o subproduto barato de desejos ainda não satisfeitos.
Seja lá quem matou a garota Isabela, estava perto o suficiente da vida dela, para poder matá-la dentro da sua própria casa. E o que é que partilhamos com as pessoas que nos são próximas senão seus dramas, medos, mesquinhez, desejos e certamente realizações e conquistas. Claro que tais coisas ainda não desenhavam a vida da garota Isabella, mas conformava a vida de seus pais e madrasta.
A motivação que jogou Suzanne Richthofen contra os próprios pais era o desejo de ter aquela parte do mundo que lhe estava sendo negada naquele momento, isto é, a liberdade para desfrutar a vida que passava a ter com seu namorado numa realidade cotidiana completamente diferente do mundo a que estava acostumada toda a vida. A mesma vida, no entanto, que lhe ensinou a ter o que sempre quis e desejou, lhe punha agora um freio a que não estava habituada. Tramar a morte dos pais, nada tem haver com sentimentos de amor ou ódio, mas sim com o desejo de vida e realização sempre prontas a serem seus e que agora estranhamente lhes são negados.
O que estes dois casos nos mostram é que estamos subestimando o poder do desejo como motor das atitudes que podem ser as mais drásticas e criminosas. Tanto num caso como noutro, Isabella e Suzanne, trata-se de pessoas jovens nascidas dos anos 1980 pra cá, no caso aqui os pais e madrasta da garota. Idade que coincide com a emergência da mídia e seus discursos de consumo, sua vocação para quebrar regras e valores seculares e que foram transfigurados em menos de 3 décadas. A substituição de toda uma forma de convivência e trocas sociais e de valores e símbolos durante séculos moldados, por novos signos e significados que a vida urbana projetou via mídias, ainda não mostrou sua inteireza, mas tem naqueles crimes uma de suas faces.
Atingimos, ainda que não completamente, uma incapacidade crônica de aceitarmos os limites do universo que consumimos via mídia e os vetores dos seus discursos. Compramos sem demora a idéia de que podemos realmente viver as fantasias construídas na publicidade e que, temos realmente este direito por atingimos um grau civilizacional que nos permite vivermos tais fantasias que se sonhadas em outros tempos como possibilidades remotas, o são agora uma realidade que ninguém pode nem deve se negar. O pano de fundo dos casos acima mencionados é este, o direito autoproclamado, toldado pela mídia, de que podemos qualquer coisa. Mais, estamos educando as gerações a partir desta idéia, “faça você pode, queira você consegue”.
Não resistimos a nada que nos impeça de fazermos o que queremos. Tudo pode se é o que você quer. No fundo, todo crime, toda contravenção, toda regra que se quebra, é a auto-afirmação de um desejo que não vê legitimidade em nada que o contrarie. Viva, a vida é agora. Tratar a vida sob imperativo do presente é como viver sem a força de qualquer impedimento legal, ou tradicional, por que sou o limite de mim mesmo e, portanto, o único em condição de estabelecer o que é importante, para mim, ou não. Num grau de importância infinitamente menor, toda ordem de regras que cotidianamente se quebram nos prédios e condomínios fechados, é na verdade a força do indivíduo e sua convicção de que paga, e que pagando cumpriu o principal das exigências em nossa sociedade de consumo. Pagar é a forma de se autorizar a não cumprir regras ou normas, e quando não se é possível por preço a coisas que não tem preço, lança-se mão da força de se desejar. Matar é o desejo querendo se realizar.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s