Antes da Lei, a moral

Luciano Alvarenga
O apoio público dado pelo Bispo de Rio Preto, D. Paulo Mendes Peixoto, ao vereador Pedro Roberto do PSOL, juntamente com outros 11 padres representantes de pelo menos 11 paróquias na Diocese é mais um sinal importante no processo de transformação política que estamos vivendo.
O apoio de D. Paulo em primeiro lugar demonstra as diferenças entre o legal e o moral. Querer fazer crer que a situação de Pedro Roberto em nada se diferencia daquela em que esteve envolvido o vereador Oscarzinho, o fantasma, passando a idéia de que se trata do mesmo fenômeno, é desconhecer os interesses e o funcionamento das câmaras legislativas do país.
Oscarzinho foi salvo da cassação pela aquiescência leviana da Câmara e pela leniência da justiça, que preferiu permitir ao vereador que devolvesse o dinheiro tomado ilegalmente, quando deveria tê-lo cassado. Aliás, permitir a devolução do dinheiro é um bom “precedente” jurídico a quem pego roubando, para que possa devolvê-lo aos seus donos.
O caso é completamente diverso agora. Eudes, o assessor de Pedro, não é fantasma. Trabalha, cumpre horário, é presente na Câmara e tem uma história naquela casa. O que não era o caso do assessor do Oscarzinho. Acusado de nunca ter ido a Câmara e receber salário sem que se soubesse de fato se era ou não assessor. Aliás, levantava-se à época a suspeita de que partilhasse seus ganhos como assessor com o próprio Oscarzinho. Justificar uma CPI no fato de que em determinados horários o assessor Eudes na Câmara não estivesse o acusando de fantasma, é pôr letra na lei que lá não existe. A questão de horários e saídas aliadas as compensações feitas por Eudes em outros momentos e situações, apenas resolve questões de ordem prática numa vida urbana e contemporânea complexa como vivemos hoje. Os vereadores faltam nas sessões de Câmara com justificativas, quando as há, as mais suspeitas sem que incorram na acusação de que são fantasmas.
Mas a questão é claro não é essa. Os vereadores Oscarzinho, Nilson Silva e outros certamente não estão preocupados com o Eudes nem se ele está ou não na Câmara. Estivessem, tanto um como outro teriam renunciado na ocasião em que estiveram até o pescoço de acusações, estas sim dignas de processos e cassações. A questão central e que move todos os ódios e vinganças desses vereadores é a necessidade urgente de deixar claro que naquela Câmara todos se igualam, por baixo; não estando nenhum deles em condição de se dizer melhor ou, mais comprometido com qualquer valor público e republicano. Essa é a única questão que lhes move e interessa. É fundamental confirmar que ali ninguém presta, portanto, deixe tudo como está.
Percebedores (?) do processo de mudança da sociedade e dos novos padrões de conduta e exigência que estamos entrando, vide a prisão do governador Arruda, o que querem deixar claro Oscarzinho e Nilson Silva é que todos são iguais. E claro, atirar na imagem do principal vereador que tem a coragem de colocar os interesses sociais e públicos acima dos privados e pessoais, é a melhor maneira de salvar-se nesse processo de mudanças e continuar contanto com a descrença da sociedade que vota nestes senhores por inércia.
Aqui é que a declaração de D. Paulo Mendes é sumamente importante. Ela separa o legal do moral. Oscarzinho e Nilson Silva só fazem atentar contra a imagem do Legislativo enquanto lá estão. Salvos pelo companheirismo noturno de outros vereadores, escapam sempre dos processos e das acusações que lhes caem. A atuação parlamentar desses vereadores, e os jornais estão ai para confirmar, é um depoimento diário contra a biografia política destes senhores. O oposto acontece em relação ao íntegro Pedro Roberto, que a seu favor tem sua própria história, e contra si aqueles dois sujeitos vereadores. Dom Paulo ao apoiar Pedro Roberto não se deixa cair na armadilha do legalismo pobre que agora, casuisticamente, aqueles vereadores reclamam contra o vereador Pedro. A questão central, e o gesto de Dom Paulo só confirma isso, não está em cartões não assinados ou ausências menores ou facilmente justificadas (aliás, já foram), mas no fato de que nada pode ser aventado, nem nada indica ou sinaliza um comportamento torpe, corrupto ou de ma fé seja do assessor Eudes como do vereador Pedro Roberto.
O apoio sem titubeio do Bispo está assentado não apenas na assinatura de mais 11 padres, mais 11 paróquias, mas no fato de que a biografia política sem mancha do Pedro e, sua história como militante da cidadania e como vereador, permite que Dom Paulo assine um documento atestando e crendo nas explicações daquele vereador. É lamentável que o vereador Nilson Silva, sem peias nem entendimento do que diz, afirme na imprensa que não interessa se é o Bispo ou Papa quem fala, com isso ele apenas confirma o que já se sabe dele. Dom Paulo apenas deu sentido moral ao que no frio da lei seria uma injustiça. Lei que, diga-se de passagem, só funciona na Câmara de Rio Preto quando é para perseguir e constranger os militantes da justiça.
O gesto de Dom Paulo está em consonância e harmonia com o que vem sendo feito no país inteiro. O Governador Roberto Arruda não seria preso caso a lei não tivesse sido interpretada, mas apenas lida. Dizer que Pedro Roberto e Eudes se encontram no mesmo nível dos que os assediam apenas por que horários e fichas amareladas não foram assinados, é chamar de ignorante a população de Rio Preto que sabe bem quem são uns e quem são outros.


Comentário

Prezado Profº Luciano Alvarenga! Parabéns pelo texto esclarecedor sobre os fatos. A corajosa e inédita manifestação pública da Igreja Católica, por seu representante regional, D. Paulo, com referência a um político nos anima a pensar que nem todo mundo pensa que todo político não presta. Mas, mais que isso, aponta o caminho da revitalização da participação política da sociedade civil organizada de nossa grande cidade e região.
O último movimento social contra investidas contrárias ao interesse público ocorreu há anos, quando as associações de moradores, pastoral diocesana fé e política, umes e cut se posicionaram conjuntamente contra a concessão do serviço de esgoto para iniciativa privada pelo prefeito da época (2002).
Ou seja, a defesa da Igreja Católica ao vereador Pedro e, em especial, ao assessor Eudes, pode encorajar novas ações na política local. Causas não faltam. Veja aí o serviço das funerárias, a instalação de semáforos caríssimos, a ETE incompleta, as águas poluídas etc. Enfim, parabéns, vamos à luta!
Marcelo Henrique, Presidente do PSOL Rio Preto
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Uma resposta em “Antes da Lei, a moral

  1. Parabéns pela interessante matéria Luciano! Também penso dessa mesma maneira. Cada vez mais temos visto sinais de pessoas que se encorajam e dão a cara a bater contra as injustiças ocorridas em nosso país, isso em todos os setores como político, econômico, social, etc. Isso me anima a acreditar e vencer o medo de que tudo sempre continuara como está. Um grande Abraço. André M.(Nova Granada/SP).

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