As faces de Rio Preto

Valdomiro Semprojeto Lopes
Mais de um ano depois da eleição de Valdomiro Lopes a prefeito de Rio Preto, podemos afirmar que o clima na cidade é completamente outro. Ano marcado por escândalos, seja na Câmara como no Executivo, o que emerge com clareza é a inexistência nesta administração de um projeto, um plano de governo que norteie a ação do prefeito. De uma administração pró-ativa e dinâmica que foi a anterior, assistimos hoje uma administração sem cara, sem feição e que não dialoga com a sociedade.
Dada a importância econômica e política de Rio Preto na região, o fato dessa administração não ter rumo nem uma coluna vertebral a partir da qual não apenas a cidade, mas a região possa se orientar, o que temos é uma tragédia que os anos seguintes vão deixar ainda mais evidente. Isolado e avesso ao dialogo com a sociedade, Valdomiro Lopes pensa que pode ser prefeito a partir do que ele pensa e intui sobre a cidade. Ignorando o fato de que Rio Preto há muito tempo não é mais a que ele conheceu, e que administrar hoje requer meios, instrumentos e ferramentas indispensáveis a uma administração moderna, o que vemos é um prefeito real administrando uma cidade virtual que ele pensa que existe.
Alojando na administração municipal uma plêiade de políticos das mais variadas tendências e tipos e que foram derrotados em suas cidades de origem, o que faz Valdomiro é premiar aqueles que foram rejeitados nas urnas. O cálculo do prefeito é o de que ainda, o mais breve possível, volte a ser deputado e, certamente, vai cobrar destes políticos a ajuda que ele oferece hoje. Como o cálculo é apenas político o que temos é uma administração forrada de gente incompetente para os cargos que ocupam. É aqui que a inexistência de um projeto central para a cidade também se mostra; uma vez que os nomes chamados a trabalharem com o prefeito não atendem a critérios técnicos e profissionais. Aliás, sobre isso diga-se que, essa administração tem significado a ressurreição de muitos nomes que a cidade a muito custo havia colocado de lado.
Centralizador e convencido de que sabe o que Rio Preto precisa, não ouve nada nem ninguém. Surdo às críticas e rodeado de problemas banais ou não, tende a achar que nada é merecedor de explicação ou justificação. Ressalte-se o absurdo das cervejas na Secretaria do Esporte, a idéia estúpida do bombeamento de água das enchentes e a invenção extemporânea da Secretaria do Emprego; secretaria essa criada sem a menor explicação sobre sua necessidade e exeqüibilidade. Desacostumado a fiscalização e a crítica, afastou-se da imprensa jornalística dando preferência a cobertura do colunismo social onde o confete é garantido e os problemas da cidade ficam do lado de fora do salão. Por outro lado, percebendo que a crítica da imprensa surte um efeito limitado sobre seu poder político – pelo menos por enquanto – uma vez que a crítica quase sempre está desconectada da sociedade, passou a agir cinicamente em relação aquela imprensa quando não com deslavado deboche.
Valdomiro Lopes certamente não fará uma boa administração por que nunca esteve preparado para isso, nem está cercado de nomes que possam fazê-lo. Enquanto isso assistimos o país em clima de crescimento e desenvolvimento, que não se via a trinta anos, e Rio Preto sem uma palavra, sem um gesto que a coloque entre as cidade promotoras desta nova realidade que o pais continuará vivendo. Para ficar numa palavra teremos dois eventos mundiais no país em seis anos, Copa do Mundo e Olimpíada, e nada há nessa administração sobre o quê e como a cidade pode disso tudo participar.

Chiques, Jecas e famosos
A forma como uma cidade se vê é também uma maneira de dizer como ela é. Nesse sentido, a imagem da cidade é fruto mais ou menos da média das opiniões correntes sobre esta mesma cidade. A distância entre a imagem real e a fantasia está diretamente ligada ao quanto é heterogênea a base de informação que compõem esta imagem. Assim, se apenas um estrato da população cria a imagem da cidade, esta cidade terá a imagem deste estrato, e desta maneira, esta imagem não é real, mas apenas uma abstração construída deliberadamente por um grupo social específico.
A imagem que a cidade cria de si mesma é, portanto, uma construção coletiva, ou então será falsa. Indo direto ao ponto, podemos afirmar que São José do Rio Preto tem uma falsa imagem de si mesma. Ou colocando de outra maneira, há uma inflação de imagem unidirecional produzida apenas por um ou poucos estratos da população da cidade, o que resulta numa idéia desvirtuada do que seja a cidade de fato. A informação veiculada num canal de mídia local de que existem em Rio Preto mais colunistas sociais do que na cidade do Rio de Janeiro é uma evidência disso. Mas o que isso significa.
O colunismo social sempre foi marcado pelo acompanhamento permanente e cotidiano do que podemos chamar de gente chique e famosa, seja lá o que isso signifique. Afora o jornalismo da cidade, que reproduz localmente a pauta de assuntos do jornalismo nacional, o colunismo social presta, então, um “serviço” de veicular dia e noite todos os dias as festas, os nomes e famílias “ilustres”, os clubes e sua agenda de shows e eventos, os bares e os jovens filhos daquelas famílias, as lojas e seus produtos exaustivamente mostrados, os empresários na maioria dos casos comerciantes, e nos piores casos comenta sobre viagens internacionais ou nacionais que são retratadas antes, durante e depois da viagem. O colunismo em São José do Rio Preto inaugurou agora nova fase, a de promover programas direto de São Paulo, ou navio cruzeiro; uma tentativa de fazer cá ficar mais lá.
O grande problema muito mal resolvido das cidades importantes do interior de São Paulo é o fato de serem do interior (isto é, caipiras) e não receberem o título, sempre desejado, de metrópole (isto é, cosmopolita). Assim é o caso de Campinas, que não aceita ser mencionada como cidade do interior, reivindicando permanentemente o título de parte da grande São Paulo. É Também o caso de São José dos Campos, que não reivindica ser da grande São Paulo, ainda que também esteja a 90 km desta cidade, mas que abriu mão de ser do interior uma vez que sua cultura caipira e local foi toda desmantelada em nome do industrialismo e do complexo industrial tecnológico do Instituto Técnico Aero Espacial. É claro que ambas as cidades continuam a ser do interior, bastando andar nelas para saber, mas não se vendem como tal, nem buscam sua identidade neste referencial.
O caso de Ribeirão Preto é mais evidente ainda deste complexo de inferioridade. Quando a partir dos anos 70 e 80, a cidade se tornou uma base na produção de álcool da cana, recebeu ou, se auto intitulou rapidamente, o título de Califórnia brasileira – surgiu até o chope, de estranho nome, de pinguim (nacionalmente conhecido, não pela qualidade, mas pela publicidade), apesar do calor insuportável daquela cidade. Aqui já não bastava mais ir até São Paulo, buscou-se no centro do mundo a referência que deveria apagar sua caipirice. O caso de São José do Rio Preto é mais problemático em permitir a construção desta imagem metropolitana, uma vez que a cidade não possui uma marca econômica incontestável que a coloque no cenário econômico global, e que permita a ela ter contornos menos intererioranos e mais cosmopolitas, ainda que esta busca jamais se concretize. Aqui se mencione o Festival Internacional de Teatro, sintoma do que me refiro que ao invés de internacionalizar o local e suas expressões, busca o cosmopolitismo pela importação de signos alienígenas.
Campinas reivindica a proximidade de São Paulo para se afastar do interior; São José dos Campos se fia em sua marca industrial tecnológica para negar o seu jequismo; Ribeirão Preto apesar de ter perdido o título outrora forjado, não se vê mais como tipicamente do interior; e São José do Rio Preto aposta em seu colunismo social para convencer os incrédulos de seu cosmopolitismo mambembe, cópia mais que precária daquilo que uma parcela da cidade deseja e nunca será.
O slogan que não pegou “Rio Preto uma terra de oportunidades”, se explica pelo duplo fato de que em primeiro lugar, não é verdade a assertiva, uma vez que muita gente não foi nem está sendo contemplado por oportunidade alguma, e fundamentalmente, por que os “chiques e famosos” estão além das supostas oportunidades oferecidas, posto que sua referência não seja as necessárias oportunidades, mas as imagens bricoladas daquilo que não são, mas querem ser. Luciano Alvarenga, Sociólogo e Coordenador Geral de Extensão da FJB.

A fantasiosa originalidade da cópia
A necessidade incontornável entre os “chiques e famosos” de emprestarem exogenamente uma imagem que não conseguem criar localmente, não é nova, sendo a própria composição do Brasil como nação uma evidência disso; tendo no século XIX uma bela imagem desse processo.
O que chama a atenção em Rio Preto é o fato de que a cidade começa a pagar um preço já caro (que ela ainda não percebeu) por este empréstimo de imagem. Sendo o colunismo social da cidade o lócus onde esta imagem importada se plasma, é nele também que podemos nos ancorar para explicar como o real e a fantasia têm produzido coisas bizarras e problemáticas. Ora, é claro que aquelas pessoas que aparecem e se deixam “vender” via colunismo social, são na verdade a expressão daquilo que elas imaginam que é o original, na capital, que elas copiam no interior. Conversando certa vez em São Paulo com um colega, me perguntou se em Rio Preto realmente havia porcos e leitões andando pela rua. Pergunta que um aluno meu em apresentação de coral em Berlim, ouviu de uma mulher que queria saber se no Brasil as pessoas moravam em árvores e se havia jacarés pela rua.
Chamo a atenção para tais histórias para lembrar que o interior, ou a periferia no caso brasileiro, tende a copiar aquilo que ela imagina ser a capital, o centro. É bom dizer que, a imagem que um estrato da população de Rio Preto, os “chiques e famosos”, busca forjar de si mesmo no colunismo, conta com a cumplicidade de quem assiste em acreditar que ela é original e não uma cópia desbotada do real, que está além das vistas e da comparação, por que lá longe na capital. A cópia finge que é original, mas o original não reconhece sua existência nem ao menos como cópia.
De tanto que se reproduz, a cópia passa a acreditar que é original por não precisar mais imitar, bastando reproduzir os tons aplicados anteriormente. Acabou, então, que um determinado estrato populacional em Rio Preto acredita que ele realmente é aquilo que vende via colunismo social. Este fenômeno é o avesso do que Gramsci chamou de bizarrice. Gramsci entendia bizarrice como a transformação inelutável a que é exposta a pessoa em países atrasados de desenvolvimento passivo, isto é, não tendo meios de desenvolver seus talentos e potencialidades pelo fato de que as estruturas burocráticas e mentais nacionais impedem, a pessoa desenvolve uma personalidade que é uma caricatura trágica de si mesmo e de suas potencialidades não afloradas. Este estrato que estou chamando de “chiques famosos” por falta de termo melhor, é o oposto daquilo teorizado por aquele intelectual. Não carregam potencialidade alguma não aflorada, simplesmente se converteram numa mal acaba cópia de algo que eles imaginam existir em algum lugar que gostariam de ter nascido.
Entretanto, uma vez que se inventam via colunismo social, e o fazem com indubitável ensejo de serem os ditos “rio-pretenses”, acabam por transformar uma caricatura numa referência que esperam seja encarada como autêntica e real. A julgar pelo que vemos no colunismo social, janela da identidade de tais pessoas “os rio-pretenses”, estas pessoas procuram ser no “real” aquilo que fantasiam que são no colunismo, e, portanto, seria aquilo que imaginam que seja Rio Preto uma vez que se vestem de rio-pretenses. Rio Preto, então, é segundo pensam estas pessoas, a imagem que pensam seja o original que está em São Paulo ou, Miami, ou outro lugar como estes. Qualquer coisa que denuncie esta fraude identitária é expelida por tais gentes como sendo inferior e atrasado. Não é por outra razão que exemplos da tipicidade da cultura local não recebem, ou muito pouco, visibilidade ou valoração, enquanto expressões de um cosmopolitismo mambembe são cultivadas e erigidas como exemplo da alta cultura local.A conclusão inevitável disso é que o colunismo social da cidade é a identidade de Rio Preto costurada pelo avesso e sem nenhuma ponderação com o real, uma vez que o real não coaduna com a imagem ideal que se deseja. Luciano Alvarenga

Olhando para frente e andando para trás

Enquanto os “chiques e famosos” fantasiam sua identidade no colunismo social da cidade, esforçando-se para acreditarem que são aquilo mesmo, a Rio Preto real desenvolve-se e se transforma todo dia, enquanto aqueles copiam a si mesmos cansativamente se plasmando com a imagem que desejam ser.
Seria fácil acreditar que o que desejam os “chiques e famosos” é na verdade morar em São Paulo e serem mais parecidos com o original que pensam copiar, mas isso é enganoso. Eles não desejam ser o original que copiam; ser original implicaria uma atitude que a maioria não tem. Deleitam-se em ser no “sertão” o bacana que não anda a cavalo e sim de carro. É mais cômodo ter status por aqui, imaginar que entre a massa da população e eles existe sedimentos de cultura e virtuosismo que eles representam, permitindo a população, que a tudo assiste sem nada entender, “contemplá-los” em sua vida de consumo e festas de clube fechado.
É tão tosco o olhar que os “chiques…” tem da cidade que ainda pensam que Rio Preto é aquela, quando ter automóvel permitia a entrada exclusiva no melhor clube da cidade. Estão completamente divorciados da realidade geral da população, não por que longe dessa realidade, mas simplesmente por que acreditam realmente na imagem fantasiosa que construíram de si via colunismo social. Este é o segredo do sucesso do colunismo social em Rio Preto e, por que ele é tão disseminado na cultura local, as pessoas que ali aparecem acreditam realmente na imagem que se produz delas naquele espaço.
Alguns elementos são evidencias chocantes do divórcio acima mencionado. O descalabro da Câmara de vereadores local, que a várias legislaturas vaza o pestilento cheiro de uma classe política em nada comprometida com a cidade, é o exemplo mais escancarado desse mal estar em que os “chiques e famosos” são apenas a contra prova. O crime cada vez mais sofisticado e ousado praticado por um tipo social que se expande em número e importância, é outra evidência da Rio Preto real que a todo custo fica escondida dos “chiques…” ou, em melhores termos, é por eles ignorada. O cosmopolitismo que buscam via festivais internacionais, encontros nacionais de saúde entre outras coisas de mesmo quilate, convivem com a eleição de um prefeito (de tipo centralizador, corte autoritário e autoimagem de quem resolve a partir do que ele pensa, e não do que é sustentável e coletivo) eleito sem projeto claro e consistente e que é, aberrantemente, o oposto da imagem que os “chiques…” tentam vender de si mesmos. A eleição de Valdomiro revela na verdade a equação psíquica dos “chiques…“ de um desejo de ser outra coisa (cosmopolita e não caipiras), mas que deságua na culpa pelas conseqüências da realização desse desejo numa cidade em que a realidade convive com problemas e urgências muito diferentes daqueles que os “chiques e famosos” querem vivenciar. “Como Rio Preto seria ótima senão existissem pobres”, é uma fala facilmente ouvida num bom jantar de família.
Valdomiro não é o prefeito errado no lugar certo, é a pessoa certa no lugar certo, apenas no tempo errado. Os “chiques…”, pelos menos os mais chiques, que sempre nos dizem via colunismo social que estão nos E. U não perceberam em suas viagens, o sentimento de profunda mudança que se operava naquele pais. Não notaram que lá como aqui havia o candidato do antigo, da mesmice, do atraso representado por histórias que já cansaram e tornaram tudo pior; e o novo, a esperança, a mudança, o nós podemos. Os “chiques…” aplaudiram o Obama e votaram no Valdomiro.O que os chiques e famosos vão levar certo tempo para entender, é que o Valdomiro são eles; mais, eles não entenderam o que está acontecendo em Rio Preto, por isso os “chiques…” estão estupefatos com o assalto iso9000 da loja dentro do Rio Preto Shopping; é o primeiro, mas outras coisas da nova realidade da cidade irão acontecer enquanto na coluna social a cidade ideal vive sua fantasia. Luciano Alvarenga

PS: os três últimos textos publicados em maio de 2009
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s