Anti-clima de natal

Por Luciano Alvarenga
O natal se transformou em sinônimo de aborrecimento, chateação, endividamento e exposição ao mau humor e deselegância das pessoas.
O natal transmutou-se na obrigação de presentear quem não precisa nem quer presentes, afinal, vamos às compras todos os dias o ano todo. A publicidade natalina, que se iniciou no início de novembro, é agressiva como um criminoso em ação. Não comprar é carregar a marca da vergonha.
Vale tudo nessa briga de vender. Havia um e-mail circulando pela net em Rio Preto de que o Shopping A não havia divulgado um seqüestro nele ocorrido, e que por isso se tornava indigno de receber os ilustres compradores de fim de ano. Um olhar mais atento ao e-mail percebia que a informação era mentirosa e provavelmente plantada por algum lojista de fora do Shopping A.
Se tem uma coisa que a maioria dos comerciantes não tem é espírito natalino, o que lhe interessa são as vendas, seu espírito natalino ele deixa em casa para quando chegar depois de tudo vender. A maioria das pessoas trabalha até o dia 24, mesmo assim conseguem no período da noite ir até ao centro da cidade ou aos shoppings comprar seus míseros presentes a quem deles não precisa.
O comércio começa vendendo para esta festa no mês de novembro e vai dezembro todo, quando não avança por janeiro. Por outro lado, a festa natalina da maioria das pessoas começa dia 25 de manhã e termina dia 25 depois do almoço. Esquisito, para as pessoas que deveriam festar o natal, apenas um dia, às vezes meio, para o comércio dois meses de alegria.
Afora tudo isso, mesmo um dia de festa nem sempre termina bem. Presentear quase sempre é um ato de rancor, rancor pela gratidão que não há, pelo abraço que não veio, pelo obrigado vazio e quase inaudível, pelo olhar desviado, pela vida que não se viveu, pela contas que não conseguimos mais esquecer, pelos natais sem presentes e bem mais felizes, tranqüilos e leves que haviam no passado.
Mas antes de chegarmos ao “grande” dia, tem o trânsito, tem a estupidez e a ignorância das pessoas, os atendentes das lojas com seus salários de fome e carga horária extenuante, tem a briga por uma vaga no Shopping que quase sempre se conquista depois de agredir alguém ou ocupar a vaga de idoso e deficiente. Tem o atropelo de pessoas mais fortes e mais jovens que não se importam de passar na sua frente. Tem os buracos nas calçadas e nas ruas, o lixo que se amontoa em todo lugar, a falta de tempo em resolver tudo o que precisa e que na verdade não é possível tratar em apenas poucas horas. Têm o aumento dos pedintes, e entre eles, agora, os adolescentes que pedem dinheiro para “pagar minhas contas”. As caminhonetes gigantes símbolo do complexo de inferioridade de muitos. Os carros mal estacionados ocupando duas vagas e irritando todo mundo. Enfim, tudo que é muito chato se aperta e acontece ao mesmo tempo no natal.
Se olharmos bem natal é uma droga; a droga que anima o comércio e o mantém viciado nas vendas. A maioria das pessoas se pudesse pularia para o dia 3 de janeiro para evitar o fim de ano. Aliás, outra coisa chata, virada de ano. Virada de ano e a cobrança para passar em algum lugar legal; legal é aonde todo mundo vai e que se diz que é legal. Legal é qualquer lugar que não seja aqui. Virada de ano é branco, e o comércio que não vendeu tudo vende agora o branco que sobrou. Virada de ano é estrada lotada, carro parado, marido bêbado, criança chorando, mulher indignada.
Depois de uma semana de tormento, de volta a rotina, ao trabalho mal pago, e as lembranças que já esquecemos. Ahh, as dívidas com o governo, com as escolas…
Esqueci de falar daquele cara que nasce no Natal. Ano que vem eu falo.
Luciano Alvarenga, Sociólogo
Twitter @lucaalvarenga
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