O tamanho da imprensa

“Tudo o que você disse em seu programa, tudo o que vem sendo escrito na internet, tudo o que dizem sobre mim não muda nada. Quer apostar quanto que eu me elejo na próxima eleição?” Vereador de Rio Preto
Duas coisas importantes aconteceram em Rio Preto neste ano de 2009. Uma é o enfraquecimento, talvez definitivo da imprensa local no que toca a cobertura da política na cidade, resultado da banalização do escândalo envolvendo políticos. E a segunda, consequência da primeira, é a relação de deboche e cinismo que os vereadores, especialmente, e o Executivo passaram a ter com aquela imprensa e, por extensão, com a sociedade.
O primeiro ano desta legislatura foi marcado, desde há primeira semana, por um alinhamento inédito de fatos graves, falas absurdas, manchetes estarrecedoras, acontecimentos inacreditáveis (cerveja dentro da secretaria de Esportes (!!), bombeamento de água, acerto de conta com a justiça por meio de pagamento a prazo de dinheiro roubado via funcionário fantasma), e o mais surreal de tudo, absolutamente nada aconteceu como resultado do teatro de horrores protagonizado pela classe política local.
Rio Preto, de um lado, vive a anestesiação provocada pelas imagens de si mesma veiculadas pelos colunismos de todo tipo, que insiste numa pseudo-sofisticação que a sociedade em sua maioria desconhece. E por outro, convive tranquilamente – como se ela não existisse – com a precariedade da realidade estampada e reproduzida na classe política. As cervejas e o acordo com o Judiciário para que Oscarzinho pagasse a prazo o crime que cometeu à vista são faces desta cidade que está encontrando enormes dificuldades para enfrentar estes novos tempos.
A discussão aberrante sobre o trem caipira e a possibilidade do turismo na cidade a partir disso envergonha qualquer um que tenha feito uma única viagem na vida a uma cidade turística. Por outro lado, isso tudo demonstra a pequenez de inteligência e ousadia de quem lidera a cidade hoje. O problema não são as muitas incapacidades das pessoas, mas quando os incapazes começam a mandar em todos.
Rio Preto tem vocação natural para ser a linha de frente nesta região, mas vê seu protagonismo esfumaçar ante uma classe política medíocre e que se alegra da própria mediocridade. A imprensa acabou sendo engolida pela insistência na mera cobertura diária do esgoto em que se tornou a política local. Os escândalos se sucederam na veiculação quase exclusiva pelas mídias, e como disso nada resultou, a imprensa perdeu força de vocalização, uma vez que em meio ao processo de deterioração política, não conseguiu se colocar como porta voz de outro projeto para a cidade. Aqui se ressalve que ser porta voz não significa apenas reproduzir notícias, mas sim propor, discutir e apontar caminhos.
É trágico o momento uma vez ainda, posto que legislativo e executivo se ombrearam na péssima qualidade de seus membros. Percebendo logo que o poder de nada averiguar, investigar e punir estava com aqueles a quem a própria imprensa denunciava, acabaram eles, os vereadores, por fazer abertamente o que antes escondiam. Aqui resulta o mais problemático que Rio Preto vem vivendo: a classe política perdeu qualquer pudor e moral, uma vez que não são apenas os indivíduos o problema, mas o fato de que as instituições responsáveis em apontar desvios e punir crimes não estão mais em condição de fazê-lo. E a imprensa, que por um momento pensou que poderia suprir esta lacuna, percebe agora que não tem força nem legitimidade para isso, já que não é seu papel substituir as instâncias de poder, mas ajudar tais instituições no fortalecimento do regime democrático.
“Tudo o que você disse em seu programa, tudo o que vem sendo escrito na internet, tudo o que dizem sobre mim não muda nada. Quer apostar quanto que eu me elejo na próxima eleição?”
Luciano Alvarenga, Sociólogo
Twitter: @lucaalvarenga
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