"um clássico vale antes de tudo porque nos ensina a ser gente e não pelo suspense de saber o final da história"

BARTLEBY
Luiz Felipe Pondé,
na “Folha”

RECENTEMENTE ENCONTREI um amigo de infância em agonia. Esses encontros são marcantes para mim porque sempre acabo percebendo como hoje sou outra pessoa. Diante das lembranças compartilhadas, a distância no tempo se impõe como distância no afeto.
Talvez falte em mim algum tipo de afeto duradouro, ou eu seja uma dessas pessoas miseravelmente volúveis que esquecem quase tudo com o tempo. Ou talvez, pior ainda, eu seja excessivamente preso ao cotidiano e, por isso, minhas amizades só sobrevivam no dia a dia. Em meio a isso, torno-me um refém da máxima contida no livro bíblico “Eclesiastes” quando o autor afirma “tudo é vaidade”. Neste instante, experimento da efemeridade de tudo, assim como quem mastiga o pó em sua boca.
Diante de frases repetidas, que remetem a momentos passados 40 anos atrás, uma rápida emoção vem aos olhos, mas o estranhamento em face da pessoa que me tornei esmaga a saudade, diluindo-a na fidelidade ao momento atual, em detrimento do passado morto. Esse estranhamento, para mim, não afeta apenas as amizades, mas também afeta as relações familiares.
Há poucos dias, uma amiga me disse que considera uma mentira a ideia de que sempre amamos nossos pais. Concordo com ela. Acho que talvez possamos mesmo não sofrer tanto com a morte de nossos pais, o que seria uma espécie de prova científica monstruosa da tese de minha amiga. A ideia que sempre amamos nossos pais me parece uma dessas idealizações que alimenta o mito de que a família seja sempre fiel ao amor que alimenta aos seus membros. Ao contrário, acho que, às vezes, ela pode ser mortal para seus membros porque mesmo o amor, às vezes, mata.
Tenho alguns amigos, mas não muitos, é claro que por culpa minha.
Sou um preguiçoso, e, por isso, o esforço é quase sempre deles, confesso vergonhosamente. Como sou uma pessoa que raramente pensa nos outros, diante de uma amizade sincera ou da generosidade quase sempre sinto o odor da misericórdia ao meu redor. Tudo de bom que me acontece me faz supor que, afinal, há alguém que carrega na palma da mão a ingratidão do mundo.
Nas férias, um amigo me presenteou com uma pequena pérola de um autor que eu já conhecia, mas não aquela obra específica.
Trata-se de Herman Melville (século 19), autor de “Moby Dick”. O pequeno livro que devorei em um dia chama-se “Bartleby, o Escrivão”. Infelizmente caro leitor, contarei o final na história. Impossível não fazê-lo, uma vez que a forma (e a força) plena do conto se dá nas últimas linhas da narrativa.
Mas como ninguém vai ao cinema assistir a vida de Cristo pra saber o que acontece com o herói no final (mas sim reviver a tragédia que é matar Deus -Deus é Cristo na história, não esqueçamos), um clássico vale antes de tudo porque nos ensina a ser gente e não pelo suspense de saber o final da história.
Quando seu patrão (o narrador) pede a Bartleby que faça uma determinada coisa no escritório (algo banal como verificar nomes numa lista ou redigir um texto), este responde com a frase que se repetirá infinitas vezes ao longo do conto, e que se transformará no verdadeiro enigma da narrativa: “Prefiro não fazê-lo”.
A recusa sistemática de fazer coisas assim, levando o patrão à loucura e Bartleby à total imobilidade, constrói o personagem como uma indagação contínua ao valor último da ação no mundo. Abandonado pelo patrão, ele se recusa mesmo a sair da escada do antigo escritório onde está sentado como se aquilo fosse o que restou de sua vida.
Bartleby morre num asilo de loucos, paralisado por sua consciência da vaidade dos gestos e da fala, reduzido a falta de ar como forma última de toda ação possível. Bartleby encarna a consciência triste que caminha invisível pelo mundo.
O narrador descobre que ele trabalhara no departamento dos correios que se ocupa com as “cartas mortas”, isto é, as cartas que retornam porque os destinatários não foram encontrados. Por que não foram encontrados? Põe-se a indagar o narrador, já contaminado pela respiração arfante de Bartleby. Quantas pessoas talvez tivessem sido salvas do sentimento de insignificância por estas cartas? Quantas pereceram sozinhas, a espera, na janela?
Quanto de afeto e gratidão se perdeu naquelas pilhas de cartas mortas? Chora o narrador: “Ó Bartleby, ó humanidade”. Choro eu: Ó Deus, ajudai-me a não ser tão volúvel e tão insensível para com os amigos que já passaram.

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