As palavras envelheceram

Foto/L.A

Entre tantas crises atualmente existentes, emocional, afetiva, existencial, temos outra tão grave, senão mais, que as anteriores. Trata-se da crise das palavras. As palavras perderam a força, não explicam mais, não são suficientes para traduzir a gama cada vez mais variável dos sentimentos novos, das experiências diferentes que estamos vivendo atualmente.
Conversando com uma pessoa muito próxima, chegamos à conclusão de que as palavras não estão ajudando muito em nosso esforço de entender e perceber o que o outro vive e sente. O que significam as palavras namoro, casamento, estar junto, amor? Ou mesmo realização, satisfação? Não significam nada, ou muito pouco. Mas, independentemente do que elas ainda signifiquem, não conseguem responder as perguntas, as inseguranças, os medos e todas as coisas que deveriam ficar respondidas quando essas palavras são evocadas.
As palavras que, no passado, ajudaram-nos a entender o mundo envelheceram, perderam a capacidade de serem guias, de serem intérpretes da realidade. Transformaram-se em mapas obsoletos e desatualizados, que não sabem ainda da existência das novas ruas, dos novos bairros ou das novas estradas recentemente abertas. Assim, quando falamos do natal, precisamos explicar, logo em seguida, que é sobre o natal de antigamente que estamos falando porque o atual nada significa. Quando falamos que queremos conhecer alguém legal, precisamos rapidamente dizer que isso não significa necessariamente casar, morar junto, mas outra coisa que você explica, explica de novo, mas ninguém compreende.
O mundo que as palavras permitiram ser compreendido desmancha-se rapidamente, dando surgimento a outro que ainda não entendemos, que não temos como compreender. Ainda assim, muitos de nós investimos grandes somas emocionais e colocamos enormes expectativas em coisas e vivências possíveis, mas que, por serem a cartografia do passado, dificilmente se cumprirão.
As palavras, que nada mais dizem, dizem-nos, contudo, de forma clara e inequívoca, uma última coisa: estamos em outra sociedade, com outros códigos, outros termos e significados. Se as palavras, que traduziam sonhos, desejos, expectativas e mundos possíveis, nada mais dizem, dizem, em seus últimos suspiros, que é preciso nos entendermos com esse novo tempo que emerge. Guiar a vida e tudo o que ela implica relativamente a sonhos e necessidades pelas palavras que, outrora, guiaram as gerações passadas é certamente deixar-se perder numa cidade com o mapa da cidade vizinha.
Se você pensou em abrir um dicionário para buscar palavras novas que substituam as antigas, não perca tempo. Num tempo novo, novas palavras fazem-se necessárias. E a invenção dessas novas palavras está nas mãos daqueles que farão a caminhada de agora em diante. Palavras se inventam a partir da necessidade e da vontade. Portanto, a questão a descobrir é quais serão as necessidades e vontades que encherão os olhos e o coração daqui para frente. Luciano Alvarenga,
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