As panelas não têm mais tampa

Acredite, o que você pensa sobre amor e relacionamento tem menos de 200 anos de idade. A idéia de estar com alguém por amor e, mais ainda, ser feliz estando com essa pessoa num ambiente antropológico chamado casamento é outro fruto dessa ideia relativamente nova, que recebeu o nome de Amor Romântico.
É forte ainda, para a mulher, essa ideia de casar para ser feliz, ter filhos para ser completa e viver um grande amor. Tais desejos não estiveram no horizonte da mulher pré-moderna, que estava mais preocupada com sua própria sobrevivência física e material do que com a felicidade amorosa que, porventura, ela viesse a ter com quem quer que seja. Mas é claro que as mulheres urbanas de hoje em dia, especialmente a mulher latina, está, sim, muito preocupada com tais coisas. A felicidade como resultado da combinação de dois seres que se encontram ainda marca profundamente os sonhos da maior parte das mulheres e de um pouco dos homens.
Mas, veja, casamento, filhos, felicidade, isso envolve outra coisa: um lar. Lar é o lugar que a sociedade inventou logo depois das revoluções burguesas na Europa. As mulheres, não as do povo, mas as da burguesia (comerciantes/empresários), precisavam de um lugar que fosse apenas delas e onde elas pudessem viver suas vidas; enquanto isso, os homens inventavam a sociedade moderna. Sendo os homens senhores do espaço público, transformaram-se, as mulheres, em senhoras do espaço privado, ou melhor, em rainhas do lar. Emma Bovary, personagem do romance “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, clássico do século XIX, era a expressão mais vivaz possível dessa mulher naquele momento histórico. Dispensadas da faina dos pesados trabalhos nas fábricas, lugar de homens, mulheres e crianças pobres, a mulher burguesa plasmou-se no principal estandarte dos valores morais, princípios religiosos e regras sociais que deveriam ser reproduzidos e ensinados às gerações futuras. As mulheres se casavam mais em razão dos interesses de classe dos homens, seus pais, que aproveitavam as filhas para amealharem riquezas e negócios possíveis a partir da união das famílias burguesas.
Virando o século, a idéia de se casar não mais apenas por interesse, mas por amor ganha força à medida que a sociedade se urbaniza, “permitindo” acordos amorosos entre casais sem a interferência direta dos pais. Casar por amor virou então uma cláusula necessária nos acordos matrimoniais e o século XX assistiu às mulheres buscando ansiosamente sua cara metade, sua meia laranja para viver uma felicidade para todo o sempre.
Não precisamos dizer que as mulheres estão procurando sua cara metade até agora, mesmo no segundo ou terceiro casamento. O fato é que, nesse meio tempo, as mulheres saíram de casa, o lar deixou de ter as características do antigo reino e, muitas vezes, virou um suplício, os homens, em geral, já não cuidam mais delas como antes e os filhos foram terceirizados. A pergunta a que as mulheres procuram dar resposta é: o que são amor, lar, casa, filhos e família nos dias atuais? A resposta que as mulheres vierem a dar a essas perguntas marcará a sociedade daqui para frente.
Uma última palavra: as européias já vêm manifestando sua resposta. Na França, o governo exige que as empresas deem 40% dos cargos de direção nas corporações para elas.

Luciano Alvarenga – sociólogo, mestre em economia e coordenador geral de extensão da Faculdade de José Bonifácio

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