O Amor tem Preço de Mercado

É claro que para a maioria das pessoas que frequentam academias obsessivamente, tomam remédios inibidores de apetites, a questão é menos saúde e mais beleza. Mais ainda, qual o efeito e aceitação que esta beleza terá num circulo restrito ou não de pessoas com que se encontra diariamente no anonimato das cidades.
Ser bonito, isto é, não estar diferente dos padrões a venda, é condição primeira a quem queira ter um lugar de destaque no mercado amoroso e sexual. Os gays sabem disso melhor do que qualquer um. A questão é a capacidade de manter-se nos padrões enquanto dura a estada no mercado bastante competitivo da beleza e da sedução em vigor nas noites e durante o dia de todos os dias.
Gordos, feios, magros demais, bunda caída, calvos, peitos murchos, esquisitices de qualquer tipo, são punidos por uma estada maior e mais angustiante no mercado amoroso. E quanto mais o tempo passa sem que se consiga se vender, mais aumenta o número de novos concorrentes que chegam ao mercado com seu produtofrescodurinhoinédito a venda e ansiosos para conseguirem bom negócio. Até nossas avós sabiam que havia um tempo para arrumar namorado, noivar e casar e que não era bom demorar em nenhuma destas etapas, uma vez que irmãs mais novas, primas e amigas também estavam na fila para resolverem sua situação.
A questão fundamental que marca a diferença com nossas avós é o fato de que elas passavam por esta experiência inquietante apenas uma vez. As mulheres de agora sabem que a liberdade que adquiriram para namorar com quem queiram, transar assim que passam a ter vontade, não ter filhos ou tê-los apenas depois da faculdade, tem um preço. O preço da insegurança, da provisoriedade, o peso de ter que voltar ao mercado para encontrar um novo amor a cada relação mal fadada, ou que tenha terminado seja lá por qual motivo for.
Não bastasse o fato de que as mulheres estão muito menos libertas do que supõem, uma vez que aquelas contingências sob as quais vivem e sofrem é resultado inesperado das transformações que buscaram e incitaram, elas agora contam apenas consigo mesmas para manterem sua relação amorosa segura e estável. Ocorre que tal tarefa numa sociedade pós-tradicional onde as relações são marcadas por intensa fluidez, liquefação e por uma porosidade difícil de conter, o resultado é que relação é algo quase impossível; sendo mais oportuno dizer que estamos vivendo conexões e não relações. Relações envolvem vínculos, tramas, acordos, cumplicidades e promessas que está em desacordo com os tempos atuais. Mais coerente com as mentes e corpos sarados hoje em exposição em busca de visibilidade, é a idéia de conexão. Tudo o que está conectado pode se desconectar sem explicações ou aviso prévio, deletado e esquecido como qualquer site desagradável de estética pouco atraente que não raro encontramos em nossas viagens pela INTERNET.
Manter é verbo apenas aceito no contexto da estética dos corpos – magros e bonitos. Como no mercado amoroso nenhuma vitória é definitiva, e nenhuma relação está assegurada para além do presente, o fato novo é que casados e solteiros continuam disputando apesar de estarem disputando em campos ligeiramente diferentes. O casamento ou qualquer relação que signifique vínculo, que no passado era o apito que dizia que o jogo havia acabado, hoje significa apenas que todo sobrepeso, mal-humores inesperados, velharias, rugas, flacidez, celulites e toda ordem de coisas não cotadas ou de cotação muito baixa no mercado, só pode significar uma coisa, seu preço está caindo. E seu preço é cotejado pela média dos produtos em oferta na sua área.
Luciano Alvarenga, Sociólogo
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