Não há ingressos para a família

Esposa de aluguel é a mais nova modalidade de serviços oferecida no mercado afetivo a quem não queira transtornar a vida para ter uma esposa oficial. No mesmo dia e num outro site havia uma matéria dizendo especificamente às mulheres que elas não deveriam ficar entristecidas que, agora a moda é morar sozinha e curtir a importância transcendente da solidão, que no mais resulta em maturidade emocional e na capacidade daí advinda de escolher melhores parceiros e possíveis amores.
Homens e mulheres caminham para a individualidade e isso é bom, por mais que muitos ainda não saibam nem gostem disso. As pessoas querem viver melhores do que vem vivendo atualmente, e uma das razões que impedem as pessoas de viverem bem é ter relacionamentos doentes, cheio de vícios, dependências emocionais, confusão de ciúme com amor, de amor com impedimentos de todo tipo, fracassos pessoais com vida à dois. Embora aquelas idéias ainda sejam encaradas por muitos como avançadas e, difíceis de concretizar o fato é que aumenta o número daqueles que se dispõe a arriscar (solidão, esposa de aluguel) para ter mais garantia de que possa colher alguma coisa boa disso. Essa atitude resulta da certeza que o relacionamento tradicional, namoro, noivado, casamento e filhos faliram. Ninguém mais consegue ficar junto dessa forma, nem quer.
Aqui é importante dizer que algo mais profundo e de maior enraizamento social também vai vivendo seus últimos dias – a família. E a família vai perdendo a força, assim como já aconteceu na Europa e outros lugares, pelo fato de que mais importante que a sociedade e os mecanismos para sua manutenção são os indivíduos e sua capacidade de viver bem, e viver bem não está associado à família, filhos, escolas e creches. Morar sozinha ou, ter uma esposa de aluguel é o início da consciência que virá em seguida, de que essa vida não é um estágio antes da família ou de uma vida familiar, mas na verdade seu último estágio e, único que homens e mulheres mais e mais vão querer viver.
Hora, não é que homens e mulheres vão amadurecer morando sozinhos e uma vez maduros e conscientes irão se encontrar para formar uma família; é outra coisa, trata-se do primeiro passo para se desamarrar da própria família, isto é, de pais, mães e avós e, com isso s
e desvencilhar dos compromissos que as famílias empurram os filhos a assumirem – o casamento e a continuação/procriação da família é o principal deles. A casa e o lar, da onde estão saindo estes que agora dizem que morar sozinho é bom, é o lócus onde começa a formação que leva ao casamento e a formação da família; família hoje em estado precário de existência, em dúvida sobre si mesma, atacada por todos os lados da vida atual e pela qual estes solitários assumidos não querem ter compromisso algum.
A queima dos sutiãs e a terceirização dos filhos que lhe seguiu pareciam ser o melhor dos mundos possíveis, posto que mantivesse a família sem ter por ela laços maiores do que aqueles necessários numa sociedade urbana e de consumo; ocorre que o sucesso daqueles eventos foi tanto e despertados tantos anseios, desejos e vontades que, melhor do que queimar sutiãs e terceirizar os filhos foi livrar-se deles de uma vez por todas. Não são os sutiãs que prendem ou oprimem, nem os filhos que impedem ou cobram, posto que nenhum nem outro o façam mais, mas a família, suas idéias e princípios contidos e apertados num lar, reproduzindo-se a custa de indivíduos ávidos pela felicidade plástica e pouco dispostos a sacrificarem sua existência por um princípio que no mais ninguém mais vê valor ou razão.
A solidão dos apartamentos ocupados por jovens ou, esposas que recebem para estarem ali apenas para aquilo que foram previamente pagas para fazerem, idéias que estão sendo ventiladas nos sites e revistas como a mais nova aquisição do panteão da felicidade e da individualidade é um caminho sem volta, do qual os benefícios ou prejuízos serão conhecidos em sua extensão com o tempo. A única certeza, se é que há alguma ainda a disposição, é o fato de que entre relacionamentos tradicionais embalados numa caixa de madeira chamada lar e, a vida individual vivida ao sabor do vento em apartamentos previamente desenhados e concebidos para este tipo de vida, as pessoas não ficarão em dúvida em optar pelo segundo.
O tiro fatal que tombou a família ainda que ela ande cambaleante por aí, foi à diluição inicialmente comemorada da autoridade familiar patriarcal concentrada, em milhares de indivíduos autônomos que passaram a carregar sua própria autoridade auto imprimida e responder apenas a sua própria convicção e escolha. A velocidade em que os pais, especialmente o pai, perderam sua autoridade moral e tradicional, certamente foi menor que a velocidade em que os filhos assumiram a sua e, passaram a dar as coordenadas muito bem recebidas da grande família, esta sim com poder, a mídia. A família não perde ainda mais rapidamente sua centralidade por que os vínculos, num país de caráter quase todo interiorano, impedem que o fenômeno ganhe contornos de avalanche; mas ainda assim, o que veremos é continuar crescendo, sem chance para retorno, o número dos que não centrarão sua vida em expectativas familiares. A diluição da família encontra força também na deserção acelerada dos adultos das próprias famílias que formaram.
Historicamente ser adulto estava associado a assumir compromissos socialmente aceitos que reproduziam as teias da vida cotidianamente tecidas e que tinha na figura do adulto seu guardião, mais que isso seu maior tecelão. A autoridade do adulto que mais legitimidade ganhava quanto maior fosse a idade que se carregava, perdeu completamente a razão num mundo em que ficar velho é ser empurrado para fora da festa. A velhice é o grande fantasma que assombram todas as tardes quando as pessoas olham no espelho depois de um dia de trabalho estressante e sem sentido, e descobrem novas rugas, novos sinais que evidenciam a crueldade insensível do tempo que não reconhece esforço algum no sentido de tirá-lo se cena. Numa sociedade compulsivamente juvenilizada a idade não pode significar outra coisa senão angústia. O sucesso de terapias, cremes, plásticas e exercícios os mais estranhos encontra um batalhão de desesperados ansiosos em livrar-se das marcas que, insistem em ocupar seus rostos e corpos e que dia a dia são ferozmente combatidos com resultados cada vez mais medíocres. Em algum momento entre os filhos que se gerou e a idade que se perdeu os adultos se deram conta de que foram entorpecidos por um discurso sem ressonância que os prenderam na caixa de madeira da família, família que agora carregam mais pelo que ela já significou do que pelo que significa. Roubados de seus discursos da moral, da ética e da autoridade, se vêem agora apenas com a parte chata da vida adulta, criar e ser responsável pelos filhos, responsabilidade mais material e financeira do que moral.
Sem a autoridade antes possuída, sem o emblema de respeitabilidade que o simples fato de ser adulto já lhe dava, pouco sobrou ao adulto que o convença ou seduza para uma vida em família. Esvaziado dos discursos que eram por ele vocalizados e que permitiam sua autoridade e que lhe davam proeminência nunca contestada, nada tem a dizer aos filhos, muito menos ainda aos netos que, o vêem mais como elo perdido a evidenciar o que antes não havia e, portanto não era bom e, agora onde os discursos que poderia proferir nada significam nem tem platéias que os escutem. Os adultos correm apressadamente para ganhar dos juvenis, aceitação e cumplicidade, aceitação que buscam imitando os adolescentes em suas manias e comportamentos, vestindo-se e usando um palavreado que dilua o mais que possível as barreiras que possa haver entre estes dois mundos que não se encontram nem se reconhecem; mas que são buscados nas academias, na moda e, prateleiras sempre cheias de cosméticos a oferecer a fórmula definitiva que dissolva qualquer fronteira que possa haver entre eles.
Não havendo nenhum ganho em ser adulto para além da autonomia de ser indivíduo, ter uma família e ser responsável por ela está cada vez menos atraente, representando mais a busca vã no passado de uma solução para angústias e dúvidas que, não serão menos dolorosos com uma família, aliás, ficarão piores. Claro que os adultos e jovens estão cada vez mais conscientes disso, e não é por outro motivo que os divórcios crescem no mundo todo, acompanhados agora dos mais jovens que nem casar quer mais, quando muito estabelecem uma pareceria sem compromissos e que não signifique senão intercâmbios sexuais e afetivos sem maiores comprometimentos. Luciano Alvarenga, Sociólogo / Espaço Mídia, Coordenador Geral de Extensão da FJB
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