Sozinho a dois

Por Luciano Alvarenga, Sociólogo
Poucas coisas são mais constrangedoras do que explicar por que o casamento acabou. A vontade é que simplesmente ninguém pergunte, afinal, o que terão elas com nossas dores e fracassos. Mas e quando encontramos aquela pessoa que nos deu a máquina de lavar (12Kl), ou a TV ( 42 polegadas). Não tem jeito, este bate-papo sinistro é inevitável.
Pior ainda é se o casamento acabou antes que as pessoas que nos deram os presentes tenham pagado os referidos presentes. Este tempo de crise no mercado financeiro e de contração do crédito, não torna as coisas mais fáceis. Aliás, o que estará pensando esta alma que deu o que não podia, mas que deu uma vez que era convidado especial.
Separar-se depois do casamento é tão certo como é certa a presença de um macaco quando compramos um carro. A questão é apenas de tempo, antes da festa e dos presentes estarem pagos ou, depois?
Pessoas nascidas no século XX geralmente confundem casamento com estar com alguém. Desse princípio elas inferem que não estar casado é estar sozinho, aqui nasce o infortúnio – para não dizer desgraça – de quase todas elas. Por que muitas pessoas, ao contrário do que pensam a maioria, estão casadas e sozinhas e outras, sozinhas, mas com alguém. A solidão, coisa que ninguém gosta, embora não conheça os benefícios, é a sombra que cobre boa parte dos que estão casados, os mesmos que imaginavam que casando se livraria daquilo que agora os atormenta, a solidão.
A lembrança do ritual do casamento, a festa, os presentes e os presentes à festa, aumentam a sensação de fracasso quando uma relação acaba. Ninguém participa de um ritual, seja qual for, impunemente; todos cumprem, sem o saber muitas vezes, seus papéis com esforço. O fracasso de um casamento reforça a posteriori o “sucesso” daqueles que casaram e não se separaram. Este é mais um elemento que aumenta a já difícil desilusão que se sente em situações como esta. É claro que casamento que não se desfaz não significa que ali exista uma boa relação, todos sabem, é bem grande o número de pessoas que reclamam da solidão a dois. Mas é certo também que ninguém irá até os mais novos divorciados da praça dizer: “não fique triste, eu estou casado, mas meu casamento acabou faz anos”. A desgraça alheia quase sempre reforça o sentimento de que “melhor eles do que eu”, ou pior ainda, o falso testemunho “meu casamento tem problemas, mas está durando”.
A tristeza e a desilusão pela separação geralmente tem o tamanho da expectativa e da alegria da festa do casamento. Desloca-se a expectativa pelo sucesso do relacionamento para o tamanho da festa que se dará. Essa desproporção é especialmente válida hoje em dia, tempos em que rituais devem ser o mais que possível evitados, uma vez que incensam coisas, sentimentos e desejos que tem chances muito incertas de se concretizarem ou acontecerem na proporção e no tempo que gostaríamos que eles acontecessem ou durassem. Em uma linha, o ritual é maior do que a chance de concretização do que ele ritualiza – o resultado é um grande vazio.
Por essa razão que à medida que aumenta o desejo de fazer uma grande festa de casamento, aumenta, senão mais, o número daqueles que simplesmente passam a morar juntos. Morar juntos é uma decisão a dois, casar é um ritual comunitário; a grande diferença entre um e outro você descobre quando se separa.
Veja mais sobre isso em http://www.lucianoalvarenga.com.br/

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