A realidade da doença

A grande questão colocada no filme Matrix, já clássico do cinema contemporâneo, é sobre o que é a realidade. A temática centenária na filosofia, apareceu em o “Mito da Caverna” de Platão. A questão é sobre até que ponto, ou em que medida o que vivemos é realmente a realidade.
A organização mundial da saúde advertiu em um recente relatório que boa parte, senão a maioria das pessoas, no mundo ocidental não está vivendo dentro do que pode ser considerada normalidade. Aqui está se referindo que as pessoas estão mais e mais acometidas por distúrbios psíquicos, descontroles emocionais, estresse físico e mental, apatia, falta de interesse pela vida.
Este quadro gera a sensação nas pessoas de que a vida que levam não é real (é insuportável), mas nutrindo sempre um desejo difuso por um dia em que a realidade de verdade, ou seja, equilibrada acontecerá. O dia a dia e a rotina são marcados por obrigações sem sentido, compromissos massacrantes com metas e deveres e, que não dialogam com uma razão mais profunda e transcendente que tornem as coisas e a vida compreensíveis e aceitáveis.
A conseqüência disso tudo é a rejeição crescente dos adultos em assumirem compromissos, laços e envolvimento duradouros que não sejam aqueles estritamente relacionados ao seu universo profissional e, não por que queiram, mas por que inevitável. Compromissos e laços, dentro de um quadro emocional e social distópico como aquele é cada vez mais rejeitado como sendo pesado demais. Amores do tipo contrato de um ano, terceirização dos filhos, a mutação da família em um agregado de poucas pessoas sem ligação afetivo-biográfica, é uma das conseqüências drásticas desta incapacidade crônica em se envolver, criar laços e se sentir responsável.
A banalização dos psicofármacos comprados facilmente em farmácias e na rede mundial de computadores, transformou-se em muletas existenciais sem as quais a maioria das pessoas não consegue mais viver. Segundo a OMS as pessoas dependentes de drogas lícitas já superam aquelas que usam drogas ilícitas. As feridas emocionais que não cicatrizam e a falta de sentido que não encontra solução, tornam a estimular o uso dos psicofármacos. A precarização da vida e o desespero que se lhe segue se retroalimenta na dependência dos remédios que criam a sensação, por um tempo, de que a realidade não é assim tão ruim quanto parece.
Tudo isso coloca a pergunta sobre o que é ou, não realidade. A bem da verdade a realidade escapou das nossas possibilidades de vivê-la, uma vez que assumir a realidade é assumir as causas daquilo que tem tornado a vida insuportável. A realidade que desejamos está sempre acolá, num tempo e num lugar que começamos a desconfiar que não vá chegar. Mencione-se aqui que as mais novas vítimas dessa situação, e que estão completamente sem recursos para defender-se, são as crianças. Tragadas pela medicalização, já que os pais são viciados em remédios ou bebidas, e tendo seu comportamento esquadrinhado por médicos de perfil psiquiátrico, estão tomando remédios inibidores de comportamento, de apetite, para dores sejam quais forem, e sem que saibam ou desconfiem, iniciam sua vida psicofarmacológica pelas mãos dos pais, escolas e professores. A realidade se transforma para as crianças numa iniciativa permanente de enquadrá-las num modelo de comportamento definido por médicos, psicólogos e psiquiatras. Profissionais estes pagos e financiados pela indústria farmacêutica, interessada em tabular todo tipo de comportamento, muitos sempre tidos como naturais, para que possa num segundo momento oferecer os remédios para sanar doenças antes inexistentes e, que agora se transformam na causa mesma daquilo que explica o comportamento “estranho” das crianças.
Assim como em Matrix, a realidade transformou-se no controle da realidade e na produção dos meios de mantê-la aceitável a maior parte das pessoas. A publicidade neste sentido é parceira indispensável dos laboratórios de remédios, uma vez que produz sempre uma outra nova realidade que deve ser consumida pelas pessoas já “tranqüilizadas” por toda a gama de produtos pscofarmacológicos a disposição, sempre tecnologicamente renovados. Luciano Alvarenga, Sociólogo/ Espaço Mídia
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s