Relacionamento obsoleto

Por Luciano Alvarenga, Sociólogo
Em tempo algum o novo e a novidade foram tão valorizados como agora. Mais importante do que ter é ter coisas novas. Mais importante do que sentir é sentir sensações não sentidas. A possibilidade que cada um tem de viver o novo, seja adquirindo o celular da moda ou, conhecendo o lugar que todos estão indo define o status que cada um goza na sociedade ou dentro de uma comunidade.
De tal forma isso nos define que ficar algum tempo sem adquirir algo reconhecidamente valorizado pelo grupo, pode nos colocar no limbo do consumo – isto é, o lugar frio e isolado aonde ninguém vai nem deseja ficar.
O novo e a novidade têm uma característica fundamental que os define, a de que não possuem defeito, nem se comportam de forma diferente daquilo que se espera deles, justamente por que só foram adquiridos por que temos certeza de que não serão diferentes do que esperávamos quando compramos. Mas caso nos surpreendam negativamente reclamamos imediatamente ao fabricante e a loja e trocamos por outro mais conveniente aos nossos interesses. Esse é o grande valor do novo, funcionam e não nos aborrecem.
A incapacidade crônica que percebemos entre os casais ou pessoas que pretendem ter um relacionamento é esse: à medida que o relacionamento dura e, durando mostra que está dando certo, evidenciam-se dia a dia incansavelmente todos os seus problemas e “defeitos” que se tornam insuportáveis à medida que precisam ser corrigidos e acertados. O que todos os casais esperam é que tenham uma relação que dure, mas na medida em que obtém sucesso nesse desejo mais e mais se exige deles que tenham habilidades, talentos e capacidades de corrigirem os problemas e desajustes que mais aparecem à medida que mais tempo se fica com a outra pessoa.
A questão é que coisas que tem problemas não possuem valor, por que valor tem o que não possui problema. Os problemas de uma relação são vistos e reconhecidos como sinalização inequívoca de que a relação não é boa, por que se boa não teria problema e, portanto, deve ser descartada em troca de outra que não demonstre ter limitações de nenhum tipo. Limitações e defeitos exigem habilidades e capacidades para o conserto que, poucos possuem, o que não deixa dúvida do que o mais acertado é buscar outra relação nas vitrines onde elas ficam expostas.
As pessoas atualmente têm uma incapacidade crônica de lidar com problemas, dificuldades ou qualquer coisa que exija delas mais tempo do que o tempo geralmente gasto numa operação bancária on-line. Num tempo em que se você está com fome basta ir ao self service; se a casa está suja basta chamar a diarista; se a torneira pingar o encanador arruma; se o computador está lento é só dar um ap grade; se as contas estouraram o banco de empresta dinheiro, não é fácil encarar os problemas e defeitos de uma relação amorosa para qual não há técnico para resolver. Quando o problema é sexo, basta ir a uma banca de revista, lá tem tudo para quem tem problemas para sentir aqueles formigamentos e choquinhos, mas quando o problema é se colocar na mesma freqüência do outro…
A disponibilidade para o test drive amoroso é tanta e tão fácil de conseguir e, são tantos os que não conseguindo ficar sozinhos logo se deixam levar para mais uma tentativa que, mais fácil do que tentar consertar o que para tanto não se tem ferramenta para fazê-lo, que o mais indicado é desfazer-se o mais rápido possível do outro – que por seu lado espera o mesmo – e sem demora se colocar a disposição para NOVAS tentativas.
A satisfação do consumo e do consumo do novo, o novo por que mais atual e destituído de problemas, embriagou a subjetividade dos relacionamentos amorosos com a lógica econômica da compra. A questão dos relacionamentos hoje não é começar, mas como se desfazer dele quando ficar obsoleto, ou seja, com problemas. Assim como as coisas os relacionamentos também têm prazo de validade.
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