Maternidade e inoportunidade

Por Luciano Alvarenga
O que significam os filhos senão a incapacidade de afirmarmos nossa vontade de não tê-los. Ou será que ainda não conseguimos lidar com a idéia de uma velhice a dois, ou sós. Ou ainda, acomodação plástica diante de uma sociedade que nos cobra os tais descendentes.
O fato é que, com os filhos acaba a graça. Os filhos são os espelhos que não nos refletem, e este é nosso problema. Numa sociedade narcisista e hedonista, os filhos nos tiram de nós mesmos, nos obrigam a mudar o foco de nossos interesses egoístas.
Os filhos são a barreira que nos separam da glória profissional. São o tempo que precisamos desperdiçar e que, não nos levam aos louros sociais. Quantos não dizem “eu amo meus filhos, mas hoje não os teria”. Filhos não dão status, apenas quando já são médicos ou advogados de sucesso… mas daí já estamos idosos.
Filhos inquietos, angustiados, drogados, bêbados, depressivos, violentos e ausentes não seriam sintomas de nossa indisfarçável vontade de não tê-los. Não seriam sinais de uma sociedade que nos cobra e que, nos faz cobrar de nossos filhos um tipo de vida que nos separam, nos isolam e nos atomizam.
O que é o sucesso, ter filhos equilibrados, psiquicamente saudáveis e felizes ou o ápice da carreira, belos carros e casas, poder sobre lugares e pessoas. Quais destas duas coisas nos valorizam e nos põem no ápice da sociedade. O que nós verdadeiramente queremos, ter tempo para os nossos, ou dinheiro para criá-los.
O que tem valor, mães que dedicam seu tempo aos filhos ou, as mulheres que ascendem na carreira e nos estudos. O que tem valor, mulheres que ficam em casa e preparam a vida dos que dela dependem, ou as mulheres que trabalham fora, ganham dinheiro e pagam as melhores escolas para que cuidem – no lugar dela – de seus filhos.
Este é o dilema das mulheres. Verdadeiramente o que se quer, reconhecimento, sucesso e o prestígio de uma carreira bem sucedida ou as responsabilidades de uma maternidade que a sociedade ainda cobra, mas não valoriza.
A felicidade de ser mãe dura enquanto dura a gravidez. A gravidez que em outros tempos era escondida dos olhares, hoje se transformou numa imagem vendável, sinal, entre outros, de poder. Estar grávida é a plenitude de poder, significa: “estudo, trabalho, ganho dinheiro, tenho reconhecimento profissional e terei um filho”. É o ápice.
Uma vez no cume só resta pensar na descida. Se a gravidez é evidência de poder, nascido o filho o problema é de agenda. Se o valor não está no filho, mas no que se faz com ele, resta deixar a maternidade de lado e partir para uma vida profissional que ao menos dê dinheiro, se possível – mesmo com o filho – sucesso.
O mercado de trabalho gosta das mulheres, mas não das mães. O mercado gosta de sua sensibilidade, de sua inteligência gerencial e de sua capacidade de intermediar conflitos, mas não das licenças maternidades. O mercado gosta de disponibilidade e não de concorrer com filhos que não são seus.
Os filhos já sabem de tudo isto. As mães ainda não. Paira a idéia de que é possível conciliar tudo. Foi aqui que chamaram as escolas e creches – que já demonstram seus limites. Alguém pode perguntar, e os homens onde entram nessa história. Não entram, estes tem largado as mulheres sozinhas depois de uma crise ou outra, afinal, a mídia não diz que felicidade é consumir, inclusive as mulheres bonitas…, mulheres bonitas, não mães.
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2 respostas em “Maternidade e inoportunidade

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