Incompetência Econômica

Em 1929, no início de uma recessão causada pela queda da Bolsa Americana, as autoridades americanas aumentaram os juros em 1000%, de 1% real para 11% real, iniciando uma quebradeira no setor agrícola e subseqüente quebradeira de 4.000 bancos.
Como hoje, os economistas da época não levaram em conta o efeito da inflação nos juros, e a subseqüente deflação nos preços de 10%, e em 1930 aumentaram o juro real em 1000%, quando o bom senso reza diminuir os juros para combater uma recessão. Em vez de admitirem culpa, culparam os bancos, e exigiram mais regulamentos bancários para coibirem “a ganância do sistema”, como estão pedindo hoje Paul Krugman, Robert Reich e Joseph Stiglitz, entre outros.
Nem se deram ao trabalho de ler as regras criadas em 1935, que são a origem desta nova crise. Em setembro de 2007, apontei este erro num artigo na Revista Veja – “A Origem da Crise Mundial” a regra estabelecida em 1935 e ratificada por todos novamente nos acordos da Basiléia I e II. Reza que “bancos poderão emprestar no máximo doze vezes seu capital e reservas, corroídos pela inflação do ano, ano após ano”. Deve ser a regra mais estapafúrdia da história da regulamentação econômica do mundo.
Ao longo do tempo, esta regra e a inflação posterior destruíram o sistema bancário mundial lentamente, ano após ano. Os bancos foram lentamente impossibilitados de fazerem empréstimos bancários e sendo destruídos como instituição. Quebraram muitos anos atrás.
Bancos não sabem mais emprestar, nem sabem para quem emprestaram. Trocaram seus empréstimos por derivativos e títulos de recebíveis, trocaram seus analistas de crédito por engenheiros com seus modelos matemáticos e consultores econômicos para prever os “mercados” futuros e fazer “arbitragens”. Sabem que o limite estabelecido pelo acordo de Basiléia é incorreto, e adotaram outras medidas como CAPM e Value At Risk, que obviamente não funcionaram.
O antiquado “5 Cs do crédito”, que era analisar o Caráter do emprestador, o fluxo de Caixa do negócio, as Condições da empresa, a Capacidade da gerência e o Colateral ou garantias oferecidas foi jogado fora. Gerente de banco não concede mais crédito para o seu cliente conhecido. Quem quiser empréstimo que preencha um longo formulário, e aguarde o “modelo estocástico” dar o OK final.
No Brasil, há muito tempo os bancos terceirizaram análise de crédito para a famosa Serasa que pertencia aos principais bancos do Brasil. Quando você divide informações com seus principais concorrentes é porque são informações que você não considera estratégicas. A maior prova foi no ano passado, quando os bancos brasileiros venderam a Serasa para uma multinacional.
Ninguém toma emprestado no Brasil, a não ser do BNDES, que usa critérios desenvolvimentistas e políticos, já que ele não tem risco. O dinheiro é do governo. Quem precisa de capital tem de fazer um IPO em Nova York.
Pior é que até 1995, o Brasil tinha a regra correta, “bancos brasileiros poderão emprestar até 12 vezes o seu capital corrigido pela inflação”, e nenhum banqueiro ou professor de contabilidade deste país protestou quando demos o mesmo tiro no pé.
Alertei no meu artigo de um ano atrás que “devido à inflação média somente deste ano de 2007, os bancos do mundo deixarão de emprestar 2 trilhões de dólares em 2008, só para poder se enquadrar nos ditames de Basiléia I e II. Um tiro no pé dos bancos e na economia do planeta.” Agora devo acrescentar que os prejuízos de meio trilhão que os bancos terão de provisionar reduzirão em 6 trilhões de dólares os empréstimos em 2009. Tudo previsível, e mesmo assim não vejo ninguém tocando neste mesmo assunto.
Embora fique óbvio para o leitor que toda esta crise foi causada não por falta de regulamentação bancária, mas justamente pelo contrário, somos obrigados a assistir um Nouriel Roubini, prevendo a falência de um banco atrás do outro, culpando a “ganância dos bancos” para a crise atual, e seus administradores.
Ou seja, vai sobrar para nós administradores a culpa desta crise, quando sabemos que a maioria dos hedge funds e bancos são assessorados por grandes economistas, quando não são seus próprios gestores. Culpam agora os bônus dos administradores destes bancos, e ninguém fala dos “performance fees” dos gestores destes hedge funds.
O que não entendo é onde estão os professores de administração e de economia brasileiros que deveriam criticar seus colegas americanos que nunca estudaram sistemas gerenciais em países com inflação?
Onde estão nossos grandes professores de contabilidade que deveriam lutar por sistemas contábeis que reflitam a verdadeira situação de uma empresa ou banco?
Onde estão os signatários brasileiros dos acordos da Basiléia I e II que deveriam ter alertado corretamente os demais países de que nenhuma regra que não corrija os efeitos futuros da inflação é epistemologicamente incorreta e que traria problemas ao longo do tempo?
Obviamente, temos inúmeros outros problemas aparentes e não é fácil determinar hoje qual é causa e qual é conseqüência. Mas, como podem estes professores de contabilidade e de economia defender que “capital corroído pela inflação” é uma regra inteligente e correta que deveria constar ainda hoje nestes acordos da Basiléia?
Onde estão os professores de administração financeira para mostrar nesta oportunidade que a administração tem soluções pertinentes ao mundo moderno, e que está na hora de também serem ouvidos?
Stephen Kanitz (www.kanitz.com.br)
stephen@kanitz.com.br

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