CAFÉ FILOSÓFICO | Entrevista com Jorge Forbes – Psicanalista


A globalização é uma mulher – módulo do Café Filosófico que o psicanalista Jorge Forbes inaugurou no dia 5 de setembro, na CPFL Cultura em Campinas.

Um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, o psicanalista Jorge Forbes lançou um novo olhar sobre a nossa nova ordem mundial: a globalização. Com tato e sensibilidade, ele tece uma rede de argumentos que formam uma comparação surpreendente entre as características do mundo globalizado e do universo feminino – a substituição do estático pelo interativo, do raciocinar pelo ressoar e da razão asséptica pela razão sensível. Tudo aponta para a nova tendência humana pela busca da criatividade e não mais da potência.

Afinal, a globalização é feminina? E o que é ser uma mulher, nos dias de hoje? Elas têm, afinal, mais liberdade do que tinham antigamente? A entrevista exclusiva com Jorge Forbes põe em pauta estes e outros tópicos.

Historicamente o sexo masculino é relacionado ao racional, enquanto o feminino é sempre relacionado ao sensorial. A psicanálise entende essa diferença como um fator orgânico ou cultural?
A psicanálise entende como um aspecto típico da fronteira do orgânico com o cultural, como uma estruturação da linguagem pulsional.

Como você analisa a resistência de alguns setores da sociedade – o religioso, por exemplo – a descriminalização do aborto? Isso fere o livre arbítrio das mulheres?
Penso que já está se anunciando a grande e esperada discussão sobre a descriminalização do aborto, com a modificação do que se legisla hoje. Essa discussão deverá vir na seqüência do recente debate sobre o uso em pesquisa das células-tronco embrionárias, e da interrupção da gravidez de fetos anencefálicos. A posição conservadora dos religiosos é o esperado.

As mulheres nórdicas, conhecidas por sua postura austera e rígida, são as que estão mais próximas de conquistar a igualdade socioeconômica dos homens. Algumas mulheres adotam uma postura masculina e recalcam sua feminilidade para poderem vencer em uma sociedade que ‘ainda’ é dominada por homens?

Imitar a postura masculina é uma das distorções negativas do feminismo. Imitando o homem, essas pessoas fazem o elogio do que combatem. A cópia nunca vence o original. As mulheres de vanguarda já sabem melhor e mais criativamente articular competência com feminilidade e estão propondo novas formas de comportamento empresarial, longe da austeridade e da rigidez, mas nem por isso menos eficazes.

As mulheres já são maioria no ensino superior e muitas famílias brasileiras são chefiadas por elas. Estaríamos entrando em uma era matriarcal?

Não, pensar assim é equivaler mulher com mãe. Ser mãe é uma posição importante da mulher, mas não a única. Mulher não é sinônimo de mãe. A Globalização, a meu ver, é feminina, mas não materna. Foi o que desenvolvi no Café Filosófico.

Em sua palestra, você cita os homossexuais que evidenciam características masculinas – barriga tanquinho, cabelo estilo militar – e explica que eles estão tentando reforçar sua masculinidade, como uma forma de defesa. Do que eles estão se defendendo, exatamente?
Reproduzo uma parte do meu artigo recente, na revista Welcome 17, onde tratei desse tema: “Um homem, ao se ver sensibilizado a novas posturas, em especial, ao ter que incluir no cálculo de seu cotidiano fatores até então desprezados pelo modelo tradicional, como a intuição, o bom ou o mau gosto, o enamoramento, pode se angustiar ao viver essas situações como passivas, ou seja, que fogem ao seu controle ativo tão próprio à velha maneira masculina de ser. Em resposta, podem ativamente “vestir” essas sensibilidades, querer administrá-las ativamente, controlá-las, e, em decorrência, preferirem a homossexualidade. É o que por vezes explica o esforço da barriga tanquinho, o peito bombado, o cabelo de reco, características tão militares, novamente. Não é supérfluo lembrar que a homossexualidade, palavra etimologicamente composta de “homo”’, “igual”, e “sexualidade”, é contrária à heterossexualidade, a vivência da diferença, do que não é igual. Nenhum julgamento moral aqui de certo ou errado, melhor ou pior, uma vez que nada mais próprio ao humano que a falta de um modelo justo sexual.”

Como podemos diferenciar o “querer” do “desejar”?
O querer, a grosso modo, diz respeito às necessidades, enquanto o desejar é o tom de sensualidade necessária à qualquer satisfação, mais além da necessidade.Assim: fome é “querer”, apetite é “desejar”. No amor, uma pessoa quer e deseja.

A filósofa e psicanalista Viviane Mosé afirmou que a psicanálise está recorrendoà filosofia, pois o homem descrito por Freud não existe mais. “Não somos mais Id, ego e superego”. Como você analisa essa afirmação?

A Psicanálise teve e continua tendo uma diferença radical com a Filosofia: esta, a Filosofia, se dedica a construir uma visão integrada, sintética, do mundo; a Psicanálise, jamais. Se não fosse assim, Freud teria criado a psicossíntese a não a psicanálise. Quanto à segunda tópica freudiana -Id, Ego, Superego – ela é avançada, em Lacan, em uma nova tópica, a do Real, Simbólico e Imaginário, conceitos mais adequados, a meu ver, ao homem da globalização.

Jorge Forbes é psicanalista e médico psiquiatra. É um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, de quem foi aluno. Teve participação fundamental na criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral. Preside atualmente o Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA) e dirige o Projeto Análise (www.projetoanalise.com.br). É membro das Escolas Brasileira e Européia de Psicanálise e dirige as pesquisas clínicas da Psicanálise com a Genética, no Centro de Estudos do Genoma Humano – USP.
Por Fernanda Bellei
http://www.cpflcultura.com.br/revista_ler.aspx?Revista_Categoria_ID=2&arquivo_ID=317

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