Duas visões da cidade

Violência e eleição é uma invenção do final do século XIX no Brasil. A república Velha (1889-1930), foi profundamente marcada pela violência nas eleições. Voto de cabresto, coronelismo, filhotismo eram fenômenos correlatos dessa época. Tais coisas ainda são fortes nos rincões do Brasil, ou o Brasil profundo, arcaico.
A difusão da mídia pelo país a partir principalmente da década de 1970, foi diluindo e diminuindo sensivelmente o poder dos coronéis e dos caciques nas decisões eleitorais. Hoje o eleitor se guia muito pelas informações que recebe via mídia e cada vez mais se vê consciente de seus direitos e do que considera o melhor para si e para o lugar onde mora.
Entretanto, o que explica o clima pesado, a tensão e a violência que irrompe em Paraibuna nestas épocas eleitorais? Todas às vezes que ligo a alguém perguntando sobre Paraibuna me dizem: “o clima está ficando pesado” ou “o clima está pesado”, ou ainda, “vai ter morte”.
Quem são os violentos, a quem representam o que querem e por que agem desta forma? Segundo me contaram, o Promotor público, atualmente em exercício na cidade, está profundamente mal impressionado como o período pré-eleitoral é conduzido na cidade.
É claro que este clima de violência epidérmica é resquício de tempos passados, isso não é invenção de agora. Conversando ainda ontem com um amigo meu profundamente conhecedor de muitas eleições em Paraibuna, me disse “Luciano, o cadelismo e o jaymismo ainda são fortes na cidade”. Concordo, mas acho que não explica totalmente o que se passa atualmente.
É claro que pessoas antes ligadas àqueles importantes homens públicos ainda mantém vivos na memória e nas conversas Joaquim e Jayme. Mas acho que o fenômeno é mais profundo e tem haver com uma concepção, uma forma de entender Paraibuna que vai muito mais longe do que aqueles dois líderes políticos. O Joaquim e o Jayme por mais importantes que tenham sido para a cidade, não inventaram a cidade, ao contrário, eles foram representantes em suas épocas das concepções que tem dois grupos diferentes em Paraibuna. As pesquisas realizadas pelo historiador Célio Freire apontam isso de maneira muito nítida quando se observa que desde o final do século XIX, idéias modernas e transformadoras levadas por determinados políticos e grupos de pessoa se opunham outras, ligadas as raízes coloniais da cidade e muito mais afeitas a manterem a cidade como era e sem mudança.
Trata-se na verdade de duas forças que entendem Paraibuna de formas distintas. De um lado, a idéia de que Paraibuna é o que é, e que sempre será assim, a famosa sentença entre os paraibunense “Paraibuna é assim e não muda”. Este pensamento mais do que ser a expressão de um grupo é na verdade a expressão de um concepção a respeito de Paraibuna e que remonta os tempos de sua fundação como vila e cidade lá pelos anos de 1820 e 1830. De outro lado, no entanto, se arregimentam pessoas que sem o saberem, talvez, se filiam a uma postura de “vanguarda”, uma cidade menos ligada a manutenção do seu status quo e mais aberta as mudanças; uma postura que também não é de agora e remonta figuras e tempos de renome na cidade (Cel. Ubatubano, Cel. Camargo, Pe Valério Alvarenga entre outros). As forças progressistas e conservadoras se digladiam a mais de cem anos em Paraibuna.
A disputa entre pessoas com um perfil conservador e amarrado ao passado, tentando de todas as formas controlarem a cidade e mantê-la de acordo com essa concepção, e outro grupo que visualiza uma Paraibuna mais arejada, mais aberta, mais plugada com o que se passa na Estrada, é a alma da história política e social de Paraibuna.
Nesta eleição o que estamos assistindo é mais um capítulo dessa centenária novela política. A violência que destilam algumas pessoas, especialmente as que estão alijadas do poder municipal, é resultado do desespero de ver as forças políticas contrárias se consolidando no poder e firmando políticas públicas que interferem profundamente no entendimento que estas forças têm da cidade e de como ela deve ser comandada. Ganhe um lado ou outro, o que está em jogo são duas concepções diferentes da cidade. Se ganhar o Barros é por que a população prefere, por quaisquer razões, as políticas conservadoras e de manutenção do status quo da cidade. Caso ganhe o Loureiro, é a expressão de que ares mais arejados e liberais voltados para políticas renovadoras e de mudança estão em alta na população. Em resumo, trata-se de dois antigos grupos de poder lutando para imporem sua visão da cidade.
A violência tende a aumentar caso a força política hoje fora do poder não aceite as mudanças em curso e se veja desprestigiada nas urnas. Sugiro ao Judiciário que permaneça atento. L.A
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2 respostas em “Duas visões da cidade

  1. Luciano, você tem razão. Política em Paraibuna é violenta.No domingo passado dia 24 foi o comício do Barros na Vila Amélia e para chegar em casa tive que passar por eles, meu carro não tem adesivo de ninguém, nem do barros e nem do loureiro, mais por algum motivo acharam que eu era loureiro. Ai meu amigo até chegar em casa bateram na lataria, no vidro, me ofenderam coisas que nem compensa dizer aqui. Imagina voce passar por isso para chegar na sua casa.

  2. É lamentável que isso que esteja acontecendo. Mas confio que o eleitorado em Paraibuna não se influencia mais por esse clima de torcida organizada. A bem da verdade tudo isso acaba funcionando como termômetro daquilo que seria uma administração pautada por esse comportamento. Agora o pano de fundo destas violências residuais são grupos de poder na cidade que disputam o comando da administração. L.A

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