Cada um na sua ilha

Por Pedro Jansen

A cena é conhecida: ao entrar no trem, metrô ou ônibus em São Paulo, com uma leve olhada ao nosso redor, percebemos um número considerável de pessoas imersas em seu próprio mundo.
Não importa o horário em que você tome um transporte coletivo, você sempre vai encontrar gente lendo, com fones no ouvido ou tirando um cochilo. Longe da minha reprovação, pois faço a mesma coisa, me chama mais atenção como o indivíduo está se tornando realmente um.
A frase parece estar mal construída, mas entenda: antes da transformação da música em MP3, permitindo que ela o acompanhe para qualquer lugar dentro do bolso, os indivíduos tinham opções mais arcaicas, como Walkmans ou disc-players. Limitados pelo espaço da fita cassete ou do cd, baterias não recarregáveis e pouca ergometria, era mais difícil ver hordas de fios pendendo da cabeça das pessoas. Isso mudou com os MP3 Players, hoje já distantes de serem considerados artigos de luxo.
E o que isso reflete no indivíduo ser um ou vários? Reflete no fato de que, antigamente, o mundo das pessoas se tocava, fosse na escola, na faculdade, no trabalho ou no transporte público. Se o livro estava chato ou a aula cansativa, era mais fácil puxar um papo com o colega do lado do que enfiar um par de fones no ouvido. E isso fazia com que, mesmo que indivíduo único e indivisível, um sujeito hipotético interagisse muito mais.
Agora, o fone de ouvido é o grande vilão da conversa despretensiosa no trabalho ou do “single-serving friend” do trajeto de metrô de casa para o cinema. Cada pessoa está inserida em sua própria realidade, o olha perdido para lugares que falam de amores, sabores, violência, religião… Nos mais diversos ritmos, numa sinfonia de chiados de fone de ouvido, todos ininteligíveis.
Cheguei a São Paulo há um ano e oito meses e desde então me tornei usuário freqüente do metrô e também dos famigerados fones de ouvido. Como comunicador, sempre me interesso pelas peças publicitárias, discursos e mensagens que vejo nos lugares em que vou. Acompanhando a TV Minuto, serviço disponível nos vagões de metrô de São Paulo e que lança drops de conhecimentos gerais para os passageiros, percebi uma mudança interessante: a inclusão de uma mensagem que diz algo como “cuidado com o volume do seu fone de ouvido, respeite os demais usuários”.
É a tradução de um anseio, de uma necessidade: “estando de fone ou não, quero que meu espaço seja respeitado”.
Em novembro de 2006, li na revista Bravo! um artigo que introduzia este tema que trago aqui [a reformulação do site da publicação me impediu o resgate do autor do texto]. O escrito abria com um relato do autor sobre um convite que recebera: comparecer a uma certa festa munido apenas do seu iPod. Ao chegar lá, o autor se deparou com um galpão imenso e silencioso, com estrobos e outras luzes funcionando, mas sem música alguma. Cada convidado dançava a sua, direto do fone de ouvido.
Imaginar aquilo foi engraçado: “que tal um ouvinte de Feist ao lado de uma apreciadora de Dead Kennedys?”. Isto certamente criaria a imagem perfeita do antagonismo, do oposto. Ao mesmo tempo, também foi bizarro. Uma festa, luzes, pessoas e nada de música além daquela que cada um ouvia individualmente.
Essa reflexão gerou uma situação curiosa. Certa vez, voltando de metrô do trabalho e conversando com um amigo sobre isso, uma garota pediu licença para concordar conosco e completou. “As pessoas se sentem muito inseguras de se relacionar com as outras. É preferível ler um livro ou ouvir música”. O papo continuou para eles, mas minha estação havia chegado. E ao sair do vagão, dá-lhe fone no ouvido.
Muito embora seja esquisito pensar no mundo assim, de fones, é compreensível que isso termine acontecendo. Aquele momento para pensar em si mesmo, sem o compromisso de dar satisfação a ninguém a respeito das suas reflexões, digerindo o dia, os problemas, está se esvaindo. O tempo para colocar a leitura em dia ou estudar para a faculdade também. É preciso aproveitar qualquer nesga de solidão, mesmo que forçada.
Como muito bem colocou John Donne, poeta inglês do século XVI, “nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo”. No entanto, essa impossibilidade de seguir sozinho parece estar sumindo. Se antes não éramos ilhas, agora estamos construindo as nossas voluntariamente.

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