Dia dos pais

Meu pai foi um chato
Dias dos pais. Dias das mães. Páscoa. Natal. Inventaram agora o dia dos avôs. São datas que não significam mais nada, estão esvaziadas, sem sentido. Damos aos nossos pais um presentinho que ele, constrangido, recebe fingindo surpresa. O fato é que estamos entorpecidos de presentes, tanto os que ganhamos como os que compramos a nós mesmos.
Presentes alegravam quando era coisa rara. Ninguém ganhava nada e, ficava realmente feliz quando ganhava alguma coisa. A verdade é que os presentes assim como as datas que eles representam perderam sentido. Um desfile de sete de setembro não tem nenhuma graça simplesmente por que a idéia de pátria, “90 milhões em ação…”, perdeu o sentido e a razão. Por outro lado, a parada gay está que não cabe mais ninguém. É por que ser gay faz mais sentido hoje do que a pátria. É interessante observar que, pai e pátria estão calcados no masculino – a única coisa que sobrou aos homens foi uma geladeira com cerveja dentro.
Mas o que há por trás destas datas que nada mais significam? Crise, isso é o que se esconde em presentes bem empacotados e com fita. Os homens estão em crise, e os pais também. Os pais e as mães não sabem mais qual é seu papel, e isso por que o espaço onde se inventavam e criavam sua importância, a família, também está em crise. Estes dias ouvi o seguinte de um pai: “filho é bom, o problema é que dura muito” e, de uma mãe: “amo meus filhos, mas hoje não os teria”.
Frases que expressam a angústia de pessoas que não sabem lidar com a realidade de ter uma família, num tempo onde ninguém consegue saber qual é melhor maneira de educar uma criança. No mais, crianças duram mais que um celular, que uma moda e, quem consegue permanecer com alguém que dura tanto? Família tem haver com coisas que duram perenes, isso por que humanos demoram para se formar e serem educados. Diz o provérbio chinês: “quer resultado em um ano, cultive arroz; quer resultado em cem anos, eduque pessoas”.
O que quero dizer é que vivemos em uma sociedade ansiosa por coisas e experiências novas, e a idéia de família está calcada na duração e no tempo longo. Se dar presente aos pais não faz sentido, é por que o pai não tem sentido algum. Os casamentos duram em média 2 anos, geralmente as crianças são mandadas a escola aos dois meses; esperar que o dia dos pais tenha algum significado é esperar muito de onde nada pode sair.
É errôneo achar que podemos realizar nossos íntimos interesses e desejos e ter filhos educados e normais. Se os pais casam e se separam com a mesma facilidade com que alugam filmes, não se importando com o fato de estarem deixando para trás crianças de um, dois ou três anos, também não podemos nos amofinar com adultos desequilibrados, estressados e imaturos como encontramos por ai, um é resultado do outro.
Por um momento achamos que poderíamos curtir a vida, alcançar os píncaros da carreira, viajar e conquistar as delícias do mundo e ainda ter uma família e; no final, tudo estaria normal e aguardando nossa velhice. Pois é, a quantidade de crianças problemas, de mulheres tomando antidepressivos e homens trocando mulheres por geladeira de cerveja, evidenciam que algo não saiu como esperávamos.
Educar não é ser legal é ser chato. Por isso antigamente se dizia: “os pais educam e os avôs deseducam”. Pais eram chatos por que ser pai era ser adulto e, ser adulto é fazer, não o que se quer, mas o que é necessário. Estamos numa sociedade onde ninguém assume compromisso por que ninguém quer ser o chato, aquele que cobra, pune. Todos queremos ser os legais, os bacanas.
Se os pais não cumprem seu papel de guias, mentores e chatos, isto é, aqueles que educam, não esperem que seus filhos sejam adultos normais. Ser pai é ser adulto, e ser adulto é fazer o papel de chato.
Luciano Alvarenga, Sociólogo e Conferencista
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Uma resposta em “Dia dos pais

  1. De forma real vemos retratado neste excelente texto o que a sociedade tem feito não somente com as datas, mas com o valor que atribuímos a elas. Emerge da crise dos relacionamentos superficiais a solução do mundo capitalista: Presentes. Camuflando os ilusórios sentimentos, eles de forma eficaz se encarregam de preencher o vazio existente entre pessoas, até mesmo dentro de uma família. Tudo isso é o claro reflexo da inversão de valores que cultivamos.Muito bem elaborado! Só achei um pouco agressivo a generalização (ninguém) quanto ao compromisso dos pais com os filhos. Mas muito bom!!!

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